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Estado de Sítio

Auto-consciencialização

Por Ana Raimundo Santos

Prólogo

O tema inicialmente previsto para esta crónica encontrava-se relacionado com as Galerias Romanas da Rua da Prata [1] e a visita que eu pretendia realizar a propósito da sua abertura anual ao público este fim-de-semana. No entanto, ontem (dia 21), dia programado para a visita, a fila era gigantesca, pelo que, por imperativos familiares, acabei por ter de abandonar o local sem realizar os meus intentos. Explicados os motivos do atraso da minha crónica, passemos à dita.


Tentei abster-me de comentar a campanha para as eleições autárquicas; no entanto, na última semana apercebi-me das movimentações cada vez mais intensas nas redes sociais acerca da mesma, e não pelos melhores motivos. Surgiu uma página no Facebook que tem como título «Tesourinhos das Autárquicas 2013» [2], cujo conteúdo se situa entre o imensamente ridículo e o vergonhosamente hilariante. Devo admitir que as publicações que por lá se fazem já me fizeram dar umas boas gargalhadas, mas também me alertaram para uma realidade muito mais escondida e periclitante que se vive no nosso País.

Em Portugal, fala-se muito nas diferenças existentes entre o Norte e o Sul do país. Via de regra, são utilizadas as cidades de Lisboa e do Porto para ilustrar as mais variadas dicotomias: as pessoas de Lisboa são isto, as do Porto são aquilo; em Lisboa é que é bom viver! Não, no Porto é que é. E por aí fora, aplicado a qualquer realidade quotidiana. Mas a larga maioria das vezes esquecemo-nos de uma outra dicotomia, muito maior e muito mais dissonante, do que a que existe entre Norte e Sul, ou do que entre Lisboa e Porto. Esquecemo-nos que, a poucos quilómetros das cidades onde vivemos — e eu por mim falo, porque resido no concelho de Cascais e a minha vida divide-se entre Cascais, Lisboa e Oeiras, três polos urbanos e, em certa medida, dotados de um certo teor cosmopolita (mais Lisboa, é certo) — existem vilas e aldeias onde a realidade é muito diferente. Localidades pequenas onde os habitantes têm uma vida e um dia-a-dia muito diferentes dos nossos, do meu.

Para mim, ir ao teatro, à ópera, ao cinema, à praia, ou a um qualquer bar da moda está dependente apenas da minha vontade, da companhia e/ou da disponibilidade financeira do momento. Para as pessoas do interior do país, à vontade, à companhia e à disponibilidade financeira sobrepõe-se um outro fator muito mais castrador e impeditivo que qualquer um dos outros — a distância.

A verdade é que viver a cem ou duzentos quilómetros de cidades como Lisboa ou o Porto é impeditivo de muita coisa, implica uma capacidade financeira acima da média, que, mesmo que se tenha, pode ainda ser sobreposta pelos frágeis e, em muitas situações, ainda escassos acessos rodoviários às mesmas cidades.

O problema da interioridade é uma realidade que, de uma forma ou de outra, me tem passado ao lado durante os meus 30 anos de vida. Sempre vivi em cidades, maiores ou mais pequenas, onde a questão não se colocava. Pelo que, à parte as conversas com os amigos do interior que vieram para Lisboa estudar e que trouxeram até mim um pequeno contacto sobre esta questão, na verdade foi necessária uma ridicularização das campanhas eleitorais que se fazem um pouco por todo o País para que a minha consciência despertasse de forma mais real.

Não tenho ilusões, nem sequer intenção, de ser capaz de, de alguma forma, poder aventar qualquer tipo de solução para o problema em questão. Mas o tomar de consciência pessoal sobre uma realidade tão próxima e, concomitantemente, tão longínqua afigurou-se-me digna de registo e partilha.

Portugal é um país pequeno com diferenças sociais, culturais e de oportunidades abissais. E a verdade é que ontem não fiquei na fila para visitar as ruínas das Galerias Romanas da Rua da Prata por uma questão de «falta de tempo», mas para o ano há mais e só se não estiver em Lisboa por algum motivo é que não farei a dita visita. Mas existem pessoas, milhares delas, por este Portugal fora que jamais terão, sequer, opção de um dia escolher ficar, ou não, naquela e em muitas outras filas.

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