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A carta

Por Hélder Oliveira Coelho

Atendendo à época de fruta em que estamos, lembrei-me duma carta que ficou famosa na minha faculdade quando a frequentava, principalmente por nunca se ter sabido o conteúdo da mesma. Durante muito tempo, houve quem tivesse especulado muito. Acho que, anos depois, pode ser tornada pública, pelo que o faço nesta coluna.

Lisboa, 2 de Outubro de 2009

Excelentíssimo Senhor Director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa
Professor Doutor José Fernandes e Fernandes,

É com muito pesar e deferência que me vejo confrontado com a necessidade de me dirigir a Vossa Excelência. Tendo em conta que o Sr. Director ocupa um cargo que acarreta uma multiplicidade de solicitações, não fosse a gravidade da situação que lhe relatarei, jamais me ocorreria incomodá-lo.

No entanto, vejo-me compelido a tomar este gesto, pois as circunstâncias assim o proporcionaram.

«A Universidade será sempre — mesmo em clima de vicissitudes — aquele baluarte de cultura, de verdade, de ideia superior, de finalidade sem paga, e portanto pura e límpida.

Exorto-vos a que a dignifiqueis, porque, se o fizerdes, ganhastes a honra de entrar activamente no combate pela causa justa, pela instituição mais rica de valores humanos.»

Professor Doutor Jorge Horta,
citado da palestra no dia da sua jubilação,
a 23 de Dezembro de 1977

Desde há muito, e decorrente da tradição académica, que as praxes se tornaram uma actividade habitual no seio da Faculdade. Por habitual, não se entenda como um fenómeno vulgar ou decadente. Entenda-se como uma prática enraizada, com costumes e valores muito próprios desta Faculdade, que sempre se pautou pela dignificação da pessoa humana, tendo como pilares a cultura, o respeito e o conhecimento que se exigem a um futuro médico.

Recordo com saudade os muitos saraus, nos quais tive a honra de fruir quer concertos de jazz, quer noites de fado, recitais de piano e poesia, ou até as intervenções sociais para a angariação de dadores de medula óssea.

Posso dizer, com certeza, que me orgulho das praxes que vivi, que em muito se distinguiam, não só na sua génese ideológica, como na sua real prática, das das demais academias. Todavia, tenho vindo a constatar que, neste ano lectivo, tal não se tem praticado. Exceptuando os jantares de confraternização, que desde sempre existiram, o que muito se tem feito é, no meu entender, rasante do mau gosto ou mesmo inaceitável para a comunidade estudantil, para o bom nome da nossa faculdade, para os prezados mestres que desta academia fazem e fizeram parte, e que em quase tudo contribuíram para uma formação exemplar, tanto de carácter científico como humano, de sucessivas gerações de médicos.

Sendo passível de discussão os diferentes tipos de jogos que ocorrem nas praxes, aos actuais eu não manifestaria a minha oposição, não fossem lesivos e antagónicos de tudo quanto tenho vindo a aprender ao frequentar a Faculdade de Medicina.

Tão más como os actos em si, são as palavras injuriosas, indignas e imorais que têm ecoado dos cânticos e gritos — mais ou menos guturais — de alunos recém-chegados, instruídos por um ajuntamento de indivíduos, mandatados por uma autoridade emanada apenas dos seus próprios egos, que não me espantaria fossem os mesmos que não assistiram, ou, estando presentes, não escutaram, as exemplares aulas ou seminários leccionados também pelo Senhor Director.

No primeiro de Outubro do presente ano, Dia Mundial da Música, à porta do Edifício Egas Moniz, assim como do Hospital de Santa Maria, em hora de grande afluência de visitas aos doentes, entoavam-se a plenos pulmões hinos em cuja vã mestria, métrica e prosódia abundavam impropérios e calão, de uma tal vileza e mesquinhez de fazer ruborizar a face a qualquer pessoa digna.

Recuso-me a transcrever na missiva a Vossa Excelência tais ímpios vocábulos. Contudo, irão alguns em anexo, por sentir necessidade que o Senhor Director tome deles conhecimento e actue conforme a sua consciência o ditar.

Após uma breve pesquisa, percebi que se criou, como que por geração espontânea, uma comissão de praxe e um novo código de praxe, que não contaram com a participação pública de todos os alunos desta academia.

A título exemplificativo do que consta em tal documento, transcrevo a classificação diferenciada que esses indivíduos adoptaram no supra referido código [1]. Acrescento ainda, em contraponto, a antiga denominação presente no regulamento de praxe elaborado pelos finalistas do curso de 2000/2006 e até à data em vigor.

Regulamento de Praxe (2006)

Código de Praxe (2009)

Escala hierárquica na FMLCaloiro
estudante de curso de licenciatura que esteja matriculado pela primeira vez na Universidade de Lisboa, sem que antes se tenha matriculado em qualquer estabelecimento de ensino superior, português ou estrangeiro.
Caloiro estrangeiro
estudante que, embora já tendo estado matriculado num estabelecimento de ensino superior, português ou estrangeiro, esteja matriculado na Universidade de Lisboa pela primeira vez.
Pré-básico
designação estabelecida após o jantar de sábado das Olimpíadas, altura em que o caloiro deixa de ser caloiro.
Básico
aluno que frequenta o 2.º ano lectivo.
Pré-clinicozeco
aluno que frequenta o 3.º ano lectivo.
Clinicozeco
aluno que frequenta o 4.º ano lectivo.
Doutorzinho
aluno que frequenta o 5.º ano lectivo.
Doutor finalista
aluno que frequenta o 6.º ano lectivo.
A hierarquia da Praxe, em escala ascendente, é a seguinte:a) Paraquedistas
– Alunos oriundos de outro curso pertencente à Faculdade de Medicina de Lisboa;
– Alunos oriundos do ensino secundário e cursos médios não universitários, que tendo sido admitidos em instituições de ensino superior vinculadas à Praxe de Lisboa, ainda não tenha efectuado a respectiva matrícula.
b) Bichos
– Alunos matriculados em instituição de ensino superior vinculada à Praxe de Lisboa ainda não baptizado.
c) Caloiros
– Alunos de cursos superiores matriculados pela primeira vez na Faculdade de Medicina de Lisboa, sem que antes se tenham matriculado em qualquer estabelecimento de ensino superior, português ou estrangeiro.
d) Caloiros estrangeiros
– Alunos que, embora já tendo estado matriculados num estabelecimento de ensino superior, português ou estrangeiro, estejam pela primeira vez matriculados na Faculdade Medicina de Lisboa.
e) Pastranos
– Alunos que, como caloiros, traçaram a Capa na Monumental Serenata, e até três dias antes da abertura oficial do ano lectivo seguinte.
f) Segundanistas
– Alunos que possuam duas inscrições no curso.
g) Semi-putos
– Alunos inscritos no 2.º ano do curso, com duas inscrições.
h) Terceiranistas
– Alunos que possuam três inscrições no curso.
i) Putos
– Alunos inscritos no 3.º ano do curso, com três inscrições.
j) Quartanistas
– Alunos que possuam quatro inscrições no curso.
k) Doutores de merda
Alunos inscritos no 4.º ano do curso, com quatro inscrições.
l) Quintanistas
– Alunos que possuam cinco inscrições no curso.
m) Merda de doutores
Alunos inscritos no penúltimo ano do curso, com cinco inscrições.
n) Sextanistas
– Alunos que possuam seis inscrições no curso.
o) Insignes finalistas
– Alunos que estejam no último ano do curso.
p) Veteranos
Alunos que possuam um número de matrículas superior ao mínimo normalmente necessário para completar o curso;
– Alunos que como tal tenham sido considerados pelo Conselho de Veteranos, por mérito académico;
– Alunos que, após término do curso, possuem 6 meses de veterania e Praxe.
q) Comissão de Praxe
Conselho de alunos vinculados à Praxe que tenham sido nomeados por mérito académico e praxístico.
r) Conselho de Veteranos
– Conselho de alunos Veteranos vinculados à Praxe que tenham sido nomeados por mérito académico.
s) Dux (Facultis/Institutus/Escolasticus)
– Veterano que tiver sido aceite, como tal, pelo Conselho de Veteranos.

Como poderá verificar, há uma associação da ilustre Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa a este execrável documento, por certo regurgitado pelos mesmos mentecaptos que incentivavam os colegas a comportamentos animalescos e grosseiros. Foi ainda mais chocante pelo facto de ter sido observado pelos utentes do Hospital de Santa Maria, que com espanto e desconforto reagiam a tal dantesco cenário. Para não referir a chinfrineira cacarejante e histriónica que poluía o ar circundante.

Senti o imperativo categórico de interpelar os colegas para que cessassem tal comportamento, apelando às suas consciências, pelo facto do bom-nome e reputação de quem nesta faculdade estuda, trabalha e ensina estar a ser enxovalhado. No mesmo instante informei de que lhe daria conhecimento do que ali tinha ocorrido. Relato-lhe um episódio que tive o desprazer de presenciar na companhia de outros colegas e docentes desta faculdade.

Numa das tardes da semana de matrículas dos novos alunos, deparámo-nos com alguns deles, em posição quadrúpede, completamente conspurcados e profundamente atemorizados pelas acções vis das quais eram alvo, em nome de uma mui democrática e informada aceitação na família desta academia.

Perante isto, apelei ao bom senso e bom gosto dos presentes e obtive como resposta — por parte de alguém que se assume como baluarte da tradição da praxe — que «um certo militarismo, hierarquia e medo» eram inerentes à própria praxe. Imediatamente retorqui que os valores da Democracia, Igualdade e Fraternidade entre os Homens, tantas vezes enaltecidos pelos meus venerados mestres, não tinham na sua essência o medo, o militarismo e uma hierarquia que não baseada no mérito.

Recordo pois as breves, mas sábias palavras do Prof. Jorge Horta com que iniciei esta carta. Creia-me que todas estas acções e injúrias culminaram na minha decisão ponderada de expor estes factos ao Senhor Director. Não se trata de uma qualquer querela pessoal ou vendetta, mas sim da salvaguarda de um bem maior — o bom-nome desta faculdade.

É sabido que a opinião pública não se compraz com a indiferença perante este género de fenómenos. Inclusivamente, essa tem sido a posição pública que o Senhor Ministro da Ciência e Ensino Superior tem veiculado. Ao ser alheio a esta situação, corre-se o risco de transparecer que se compactua com este género de actividade.

Urge pôr fim a uma pseudo-tradição, imberbe e degradante, por certo importada de um outro qualquer local, que nossa nunca foi e desejo que jamais venha a ser.

Com os mais cordiais e respeitosos cumprimentos,

HOC

6 comentários a “A carta”

A carta…
A carta… Resultou num auto-de-fé das bruxas e infiéis que perpetravam tais atrocidades na Praça do Comércio, com transmissão em directo nas “tardes da Júlia” e simultaneamente num hiperbólico onanismo intelectual do Sr. Director da Faculdade…

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