Categorias
O Muro das Lamentações

Idiossincrasias da CP

Por Gustavo Martins-Coelho

A crónica de hoje vai ser curta — só uma pequena história que quero partilhar com o leitor.

O Hélder [1] convidou-me recentemente para um sarau cultural, que organizou na sua terra natal. Para poder estar presente, procurei na página da CP [2] uma ligação em comboio entre o Porto e a Guarda e fiquei a saber que, ao Sábado (o dia do sarau), há seis ligações ferroviárias entre estas duas cidades, a primeira das quais às 8h52 e a última do dia às 22h00. A noite é para dormir; durante o dia, viajar entre duas capitais de distrito do País só de duas em duas horas e mudando em Coimbra-B ou na Pampilhosa.

Até nem é mau ter de mudar de comboio, porque as mudanças de meio de transporte favorecem a mobilidade [3]. A não ser que impliquem ficar 54 minutos sentado na estação de Coimbra-B à espera do próximo comboio; isso prejudica a mobilidade. Mas a minha mobilidade não teve desses problemas de espera, pois escolhi uma opção que obrigava a apenas cinco minutos de espera na Pampilhosa. No entanto, quando estava a comprar o bilhete, disse-me a «menina do guichet» (uma expressão deliciosa para identificar todo um conjunto de pessoas cuja vida profissional se faz atrás dum balcão protegido por um vidro):

— Olhe que só tem cinco minutos para mudar de comboio e, se este atrasar, não garantimos a ligação. Se calhar, era melhor apanhar o Regional seguinte.

Ou seja, a «menina do guichet» propunha-me esperar garantidamente 2h47 pelo Regional seguinte na Pampilhosa, para não arriscar uma espera de cinco minutos que poderia redundar em perder a ligação se o primeiro comboio se atrasasse. Como eu, teimoso como um jerico, insisti em comprar a ligação curta, a «menina do guichet» fez questão de me carimbar o bilhete com a expressão:

As ligações entre comboios só são asseguradas em condições normais de Circulação.

Ao que parece, nem quando existe uma ligação eficiente (coisa rara nos horários da CP) a podemos aproveitar, não vá a CP conseguir estragar o pouco que funciona.

Voltando ao mundo de possibilidades de ligação entre o Porto e a Guarda, em termos de modo, o passageiro pode optar por fazer todo o caminho em comboios Intercidades [4], uma parte em Intercidades [4] e a outra em Regional [5], uma parte em Alfa Pendular [6] e outra em Intercidades [4], ou combinar o Intercidades [4] com o serviço Internacional [7]. Até aqui, nada de novo. O verdadeiro motivo de interesse estás nos preços de cada viagem.

Para ir do Porto à Guarda em Intercidades, o preço é de €20,50, independentemente de se mudar na Pampilhosa ou em Coimbra-B. Mas, se a opção for por Intercidades e Regional, mudar na Pampilhosa custa €23,80 e em Coimbra €24,95. Já ir de Alfa e apanhar depois o Intercidades custa €25,40. Se a opção for a combinação Intercidades e Internacional, então o melhor que o leitor tem a fazer é telefonar para a CP, ou ir directamente à bilheteira mais próxima, e perguntar pelo preço, porque na Internet não o descobrirá; não me pergunte por que razão a CP omite esta informação da sua página.

A distância entre o ponto de partida e o ponto de chegada é a mesma para qualquer uma das alternativas, pelo que, num país como, por exemplo, a Holanda, o preço a pagar seria o mesmo independentemente de, na realidade, ter feito cerca de 300 Km, passando por Coimbra, ou atalhando uns 50 Km pela Pampilhosa. Em Portugal, contudo, isso só é verdade para as viagens em Intercidades. Se a conversa meter o Regional, então ir do Porto à Guarda por Coimbra é mais caro do que pela Pampilhosa, porque demora mais tempo e o percurso é mais longo…

Este último aspecto traz-nos à questão seguinte: a do serviço propriamente dito. Comparando, novamente, com a Holanda, o preço da viagem num dado percurso seria o mesmo independentemente de se ir num comboio urbano, regional ou intercidades. Em Portugal, porém, apanhar um comboio Regional, menos confortável do que o Intercidades, é um luxo que deve pagar-se!

Termino com os tempos de viagem: variam entre 2h50 e 4h10. De carro, não chega a duas horas.

Julgo que, perante este quadro, qualquer argumento sobre simplicidade e rapidez no transporte ferroviário se torna desnecessário…

5 comentários a “Idiossincrasias da CP”

Descobri que já em 2006 tinha escrito no meu blogue de então:
«O Alfa Pendular entre Braga e Porto custa €12,50 e demora 42 minutos. O urbano no mesmo percurso custa €1,95 e demora 55 minutos. 13 minutos custam €10,55. Estranho…»
Certas coisas não mudam.

[…] Na semana passada, terminei a minha apologia do transporte colectivo [1] com um desafio ao leitor: abandonar o preconceito e experimentar o transporte colectivo. O preconceito é real e vê-se, por exemplo, num maravilhoso trecho do blogue «A nossa terrinha» [2], cuja leitura recomendo, ou nos míopes corolários extraídos pela autora das premissas apresentadas num outro artigo recentemente publicado no «Porto 24» [3]. Mas o preconceito não é totalmente infundado: de facto, nem tudo vai bem no reino da Dinamarca e a visão negativa do transporte colectivo resulta da generalização (em boa verdade, injusta, por vezes) de situações particulares, mas que são reais e que também já abordei neste blogue [4,5]. […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *