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O Muro das Lamentações

A hora do planeta

Por Gustavo Martins-Coelho

A «Hora do Planeta» [1] é uma iniciativa internacional da World Wildlife Fund [2], que visa sensibilizar a sociedade para a luta contra o aquecimento global.

Como medida de sensibilização, parece-me louvável. No entanto, questiono-me em relação ao seu real alcance. Uma coisa é falar do aquecimento global; outra coisa, bem diferente, é identificar quais as medidas que cada pessoa, individualmente, pode e deve tomar no seu dia-a-dia como forma de contribuir para a protecção do ambiente e, concretamente, para a diminuição das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera.

Neste capítulo, parece-me que a iniciativa falha clamorosamente. Uma coisa é apagar as luzes durante uma hora (o que, já de si, pode ser bastante chato). Outra coisa é apagá-las permanentemente. Ora, se não passa pela cabeça de ninguém viver sem iluminação nocturna nas ruas, sem luz em casa, sem televisão ou sem computador, por que há-de alguém experimentar fazer isso durante uma hora? É claramente um acto inconsequente.

Não seria melhor, por exemplo, ensinar o povo a desligar as televisões e aparelhos associados no botão em vez de utilizar o controlo remoto? Não seria melhor explicar a importância de não pôr o ar condicionado a temperaturas de enregelar no Verão nem o aquecimento a temperaturas de estufa no Inverno? São dois exemplos; mais haveria.

As autarquias que em Portugal se associam a esta iniciativa podem dizer-se amigas do ambiente? Quais são as medidas realmente tomadas na protecção do ambiente? Houve investimento em transportes públicos de qualidade, capazes de efectivamente competir com o automóvel particular em custo, em rapidez e em conforto? Por muito boas intenções que haja, não pode esperar-se que o povo prefira viajar num autocarro apinhado, atrasado e não tão barato quanto isso se puder deslocar-se sossegadamente no seu carro (mesmo que em segunda mão e com duas ou três prestações atrasadas, por causa da crise). Houve investimento em sistemas de recolha de lixo? Por muito amigo do ambiente que se seja, ninguém vai separar o lixo para depois ter de procurar o ecoponto mais próximo a cinco quilómetros. Os edifícios públicos são energeticamente eficientes? É duma grande hipocrisia exigir certificados de eficiência energética às habitações particulares e não fazer o mesmo aos edifícios públicos. Estes são alguns exemplos de como se poderia ser efectivamente consequente em termos de protecção ambiental e não apenas através de iniciativas muito bonitas no momento e que certamente deixam os aderentes com a consciência tranquila, mas que, na verdade, em pouco contribuem para, de facto, proteger o meio ambiente.

Não me associei à iniciativa, por considerar que o meu papel de protecção do meio ambiente e de luta contra o aquecimento global tem sido desempenhado nas minhas acções do dia-a-dia. Com muita pena minha, duvido de que muitas das pessoas e das entidades que apagaram as luzes na Hora do Planeta possam dizer o mesmo.

Um comentário a “A hora do planeta”

Eis um artigo muito acertado e relevante.
Além do que referes, essa iniciativa é, per se, contrária aos valores que propõe defender. Passo a explicar-me: essa campanha conduz, inevitavelmente, a um de dois cenários: ou um grande desperdício de energia ou um desastre na rede eléctrica. Isto acontece porque a electricidade não é produzida “on demand”, isto é, a energia não é produzida nem armazenada na rede eléctrica só porque nós carregamos num interruptor ou ligamos um aparelho. A energia é colocada na rede com base em padrões de consumo, com uma margem de segurança, dado que se houver falta de energia face às necessidades, isso pode resultar em sérios danos à rede eléctrica, e o que não for consumido é perdido.
Assim, das duas uma: se houver participação e a distribuidora de electricidade não conseguir prever com alguma exactidão quantos participam, haverá desperdício de energia. Se a distribuidora sobrestimar demasiado os participantes, há o risco de haver electricidade insuficiente na rede, o que leva a falta de energia e possíveis estragos graves.
Como creio que para uma acção ser boa não bastam os fins serem bons, mas também os meios, e porque ainda é mais estranho quando os meios são diametralmente contrários aos fins, não me associo nem nunca me associarei a este tipo de iniciativa, embora louvando os fins da mesma.

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