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Estejam atentos, seus coirões…

Por Hélder Oliveira Coelho

Em tempos difíceis e sob este delírio colectivo de ruína que todos atravessamos, não é simples manter a lucidez. É certo que, sem uma reforma profunda do sistema político e das leis eleitorais, não é possível aproximar a política das gentes. Por outro lado, a ausência de uma linha orientadora no pensamento europeu catalisa o caos de todos quantos ainda têm esperança nas instituições e na democracia. Feitas as duas notas introdutórias herméticas e generalistas, há que falar da angústia do dito povo, o terceiro Estado, ou classe média, como fica bem chamar agora. Média na classificação, mas medíocre nas vivências. Porque, para quem todos os dias acorda para trabalhar, as ideologias e as estratégias políticas resumem-se a comprar o pão para o dia ou vestir os meninos para levar à escola, pagar a renda de casa, sustentar os aumentos de impostos e sobreviver até ao fim do mês sem passar fome. Estas serão as verdadeiras políticas do quotidiano. Pedir para que opinem sobre outros enquadramentos é ser pobre de espírito.

Ainda assim, os problemas que enunciei são os que devem ser equacionados pelas elites para alavancar novos caminhos.

Urge perguntar: e agora, que se faz enquanto as elites não materializam, ou, ao menos, se consciencializam, do que é preciso mudar? Relembro o voto de confiança que cada pai faz para um filho no momento em que nasce:

— Que seja feliz!

Na prática, há que relativizar a realidade. Reorganizar o quotidiano e atribuir novos valores ao que se vive. Encarar o sorriso como peça fundamental da manhã, um abraço como alavanca para a tarde, o pôr-do-sol como porta aberta para um bom descanso pela noite.

Há duas formas de lidar com os problemas: enfrentando-os, ou fugindo deles. Em contrapartida, se os problemas apresentam solução, então há que relativizá-los, atendendo a que estão resolvidos. Se não há solução, então não podemos permitir que nos aflijam em demasia.

No que está ao nosso alcance mudar, então ponhamos as mãos à obra. O que já não depende da nossa vontade ou da nossa acção, então esmague-se com o peso de um sorriso e avance-se para o que merece o nosso empenho.

Dá trabalho ser feliz, mas é um investimento que vale a pena…

E, falando em investimentos… Há não muitos dias, quis mostrar a uns amigos os jardins contíguos ao solar Telles de Vasconcelos e não pude fazê-lo. Estranhamente, o investimento da autarquia a recuperar aquele espaço está agora votado ao abandono. Pior do que isso, longe do alcance de quem tem direito a usufruir dele. Ou não serão os investimentos da Câmara feitos com dinheiros públicos, que é como quem diz, parte do orçamento de todos nós?!

É bom estar de volta à rádio.

Calculo que me esperem momentos de lazer, diversão, seriedade, honestidade e, quem sabe, puro ócio ao serviço do cinismo ou da ironia, de quem se regozija pela independência e liberdade de pensamento. Parafraseando a grande filósofa Cherilyn Sarkisian [1]:

— Estejam atentos, seus coirões, que eu estou vivo.

Um comentário a “Estejam atentos, seus coirões…”

Pelo que me toca como mãe (“Relembro o voto de confiança que cada pai faz para um filho no momento em que nasce: «que seja feliz!»”), obrigada.

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