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O Muro das Lamentações

As gordas

Por Gustavo Martins-Coelho

Resumindo o artigo da última semana [1] numa frase: não era preciso cortar pensões se se cortasse nas gorduras do Estado.

Admito que é mais fácil dizer do que fazer. Mas gostaria de contar uma história passada num hospital perto de si, que me parece exemplar.

Nesse tal hospital, a médica chegou passava pouco das oito. Encontrou a auxiliar no corredor e pediu-lhe que fosse buscar os doentes que estavam internados, para fazerem os exames que estavam marcados. A auxiliar respondeu-lhe que o seu horário só começava às oito e meia e, portanto, apesar de já estar no hospital, ainda não estava de serviço. Assim, a médica teve de esperar, sem nada fazer, que os doentes chegassem.

Às oito e meia, a auxiliar foi tomar o pequeno-almoço. Só depois subiu à enfermaria para ir buscar o primeiro doente. Voltou eram quase nove e vinte. Foi a essa hora que a médica começou a trabalhar. Mas o Estado remunerou-a para estar aquele tempo todo sem produzir.

Alguns leitores dirão, possivelmente, que não ficava mal à médica descer do seu pedestalzinho e ir ela-mesma buscar os doentes; sempre adiantava serviço e não se perdia tudo. É verdade que sim, mas continua a ser um desperdício de dinheiros públicos ter alguém cuja formação (pré-graduada apenas) custou mais de €61.000 ao Estado a fazer serviço de transporte. Como o objecto deste artigo é o corte no desperdício e não a auto-estima duma classe profissional, este argumento não colhe.

Então, qual é a moral desta história? Há duas. A primeira é que, se dois profissionais dependem um do outro para fazer o seu trabalho (a auxiliar só vai buscar os doentes quando a médica está pronta para os examinar, e a médica só pode examiná-los depois da auxiliar os trazer), então os seus horários, dê lá por onde der, têm de coincidir. Fazer uma entrar ou sair antes ou depois da outra representa uma perda de eficiência. A segunda é que uma pessoa que demora quarenta minutos a fazer uma tarefa que, em condições normais, não toma mais do que quinze, tem de ser ensinada a aumentar a sua produtividade, advertida se se recusar e despedida se for incapaz.

A função de qualquer governo, aqui, é meramente facilitar. Não é humanamente possível a um grupo de pessoas em Lisboa identificar todas estas falhas que se multiplicam nos serviços públicos (e também nos privados, mas, mais uma vez, não é esse o objecto deste texto). Mas é obrigação de qualquer governo legislar no sentido de que a lei deixe de ser um empecilho à correcção destas anomalias gritantes e se torne um factor que promova a sua resolução. Pelo menos, antes de pensar em cortar em pensões.

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