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Estado de Sítio

E se?

Por Ana Raimundo Santos

Há duas semanas, o País gritou, esperneou, fez o pino e ameaçou sair para as ruas e revoltar-se perante a apresentação do Orçamento de Estado para 2014.

À primeira vista, as intenções do povo seriam legítimas, na medida em que, utilizando uma linguagem menos eloquente, mais uma vez o Estado pretende ir-lhes ao bolso. Todavia, opções politico-partidárias à parte, questiono-me, e questiono o leitor, se, perante o estado a que o Estado e o País chegaram, não valerá a pena quase tudo para o tentar reerguer?

Na qualidade de funcionária pública que sou, as interrogações e os dilemas pessoais, profissionais e de cidadania são mais do que muitos. A controvérsia e o desacordo instalam-se em mim de cada vez que pretendo chegar a uma qualquer resposta. E os argumentos esgrimem-se entre si, as razão são válidas de ambos os lados e a conclusão é sempre uma e a mesma: a minha opinião divide-se.

Numa outra altura, seria eu a primeira a fazer um comentário jocoso, até sarcástico, sobre a resposta que encontro para mim mesma, mas os tempos mudaram e são de contenção, até mesmo no sarcasmo. E porquê? Porque o estado a que o Estado e o País chegaram assim o exige. Não é com piadas ou causticidades que vamos conseguir fazer com que o país se reerga e se torne num terreno fértil para que possamos ter um futuro e proporcioná-lo, de igual modo, aos nossos filhos. O País é nosso mas também será deles, e é por nós e por eles que devemos pôr a mão na consciência e pensar o que de facto queremos que seja a evolução de Portugal.

O povo está revoltado porque o Governo corta nos salários e aumenta os impostos, corta nas pensões e tributa os subsídios de desemprego e doença. Mas a verdade é que, ao longo dos últimos trinta anos desta chamada democracia em que vivemos, foram cometidas atrocidades políticas, financeiras e fiscais que conduziram o País até às imediações do buraco negro no qual corremos o risco de mergulhar para de lá nunca mais sair – pelo menos não a tempo de ver isso acontecer em vida nossa.

As ruas podem encher-se de pessoas, o Presidente da República pode suscitar a fiscalização preventiva do Orçamento de Estado, o Tribunal Constitucional pode declarar a inconstitucionalidade de algumas das normas do diploma, e no fim a realidade das famílias e do país não melhorar; antes pelo contrário, tenderá a piorar talvez até de forma abrupta e incontrolável.

Neste ponto, percebo a indignação que o leitor poderá estar a sentir perante as minhas palavras, mas paremos um pouco para refletir sobre algumas questões: e se o Orçamento for chumbado ou as suas normas mais polémicas, que são simultaneamente as basilares neste contexto de crise, forem declaradas inconstitucionais? E se o governo considerar, na sequência de alguma destas realidades, que já não possui quaisquer condições para continuar em funções e se demitir? E se for necessário um segundo resgate financeiro?

Não desespere, leitor, não sou nem pretendo ser um arauto da desgraça e da calamidade, mas sinto-me no dever de partilhar com quem me lê as angústias e interrogações perante a potencial realidade assombrosa em que o nosso País pode cair.

Para terminar, deixo-vos a questão que mais se me coloca, e que de alguma maneira enforma as minhas preocupações e as de milhares de Portugueses: e se todos os esforços feitos até hoje se mostrarem gorados, infrutíferos e inúteis? E se???

Um comentário a “E se?”

Cara Ana, a reflexão que faz é pertinente e prima pela ponderação, e concordo quando diz que temos de ser cautelosos na manifestação das nossas opiniões e na discussão destes temas difíceis.
Mas E SE a maior questão for… (falando de forma muito simplista):
… dado que as coisas estão mal, e que até sabemos identificar muitas das origens deste eventos económicos que nos afundam…
… dado que, como bem diz, apesar de todas as medidas, em termos práticos para a nossa geração as coisas vão continuar a piorar…
… dado que se o governo se demitir ou se todas estas medidas (que já me parecem desesperadas) forem infrutíferas e necessitarmos de um 2º resgate, então é o nosso colapso…
… não será melhor optar por parar, reflectir e decidir um novo rumo para o país, direccionado num outro esquema económico, dado que o actual nos prende e (a meu ver, propositadamente) nos limita o nosso grande potencial de crescimento?

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