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Pais e os pequenos irmãos

Por Gustavo Martins-Coelho

Lá porque certos pais não dão atenção aos filhos, isso não transforma os outros em meninos mimados. Gosto muito da minha mãe. Nasci careca e muito bonito. Ninguém começa porque quer. Começamos porque nos fazem começar. E começamos como nos deixam começar. E onde nos levam a começar.

As melhores conversas surgem quando ninguém está a ouvir. Uma pessoa a morrer de sono e outra a buzinar-lhe ao ouvido:

— Então foste com o teu pai?

— Fui.

— Não me tinhas contado.

— Pois não.

— Eu não sabia.

— Pois, se não te tinha contado!…

Um dia, perguntei ao meu pai se não achava um bocado chato sacudir a toalha para cima da varanda dos vizinhos de baixo. De cada vez que abro a boca, lá vem o torpedo por baixo de água para me atingir no flanco. Sou um idiota chapado.

Bateram-me à porta dois mórmones. O Sol brilhava lá no alto e iluminava e aquecia a minha vida. Tentei lavar-lhes o cérebro antes que eles me lavassem o meu, durante uma hora e meia. Mas o melhor de tudo é que um deles se chamava Hooker. Mas quem é que chama «Pêga» ao seu filho!?

Conheço pessoas do outro lado do mundo, mas não os meus vizinhos. Há verdadeiras pérolas ao virar da esquina. Tudo o que é preciso é andar de olhos bem abertos. O som da televisão desligada do vizinho não me deixa dormir. No fundo, isto é tudo uma grande depressão.

Quando quiseres fazer algo de que te envergonhes, lembra-te de que há sempre alguém a ver. Uma vantagem de morar sozinho é poder andar nu em casa. Bem sei que tentas controlar-me, mas hás-de perder a mania.

Se o mundo acabasse, talvez a crise acabasse com ele.

2 comentários a “Pais e os pequenos irmãos”

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