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O Muro das Lamentações

Ponto e vírgula

Por Gustavo Martins-Coelho

Este texto foi escrito em 2007 e começa assim: tenho vindo a notar uma diminuição generalizada na qualidade da escrita jornalística e mesmo da literária (basta pegar num livro da Margarida Rebelo Pinto [1] para entender o que quero dizer). Juro que a referência à Margarida Rebelo Pinto nada tem a ver com a recente polémica [2] (até porque já lá estava em 2007); é só porque ela não era, mesmo, boa escritora (uso o pretérito porque já não leio nada dela há uns anos e é possível, embora improvável, que tenha melhorado, entretanto). E, antes que me acusem de pseudo-intelectualismo, a minha razão para classificar a escrita da Margarida como de baixa qualidade tem a ver com o problema que a senhora tem com a gramática, em geral.

Os dois aspectos que mais me têm chamado a atenção nesta diminuição da qualidade da escrita são a oralização da linguagem e a pontuação.

Começando pela primeira, o exemplo acabado é a revista «Visão» [3]. Entre as muitas coisas que aprendi na escola primária, duas se impõem neste contexto: a primeira é que o nível de língua e a construção frásica são necessariamente diferentes na linguagem oral e na escrita; aprendi também que uma frase, para ser merecedora desse nome, tem de ter, pelo menos, um sujeito (explícito ou subentendido) e um predicado e uma sequência lógica entre os elementos que a compõem, caso contrário trata-se duma não-frase (chegávamos a fazer exercícios para distinguir frases de não-frases). Se num texto literário se aceitam liberdades artísticas próprias dum género que joga também com as regras que conformam a escrita com o objectivo de surpreender, inovar e impressionar, num texto jornalístico tal não é, de todo, aceitável. Na escrita duma notícia é preciso, além de imparcialidade e de concisão na transmissão da informação, rigor formal e respeito pela gramática básica, sem as tais liberdades literárias, porque um texto jornalístico não é nem deve aspirar a ser arte, tendo outra função específica, no exercício da qual não se começam frases por conjunções copulativas e não se preenchem frases inteiras com complementos directos ou com um só adjectivo (não se fazem frases duma só palavra, em geral), só para citar os exemplos mais flagrantes.

A pontuação é outro problema. Como consequência da última frase do parágrafo anterior, abusa-se dos pontos finais. Em compensação, o ponto e vírgula, de que tanto gosto, parece ter caído totalmente em desuso (sendo, nalgumas vezes, incorrecta e desnecessariamente substituído por pontos finais). Porém, nada é tão anárquico como a colocação de vírgulas. Sobre este aspecto, há várias regras, mas duas merecem destaque por não terem excepções e serem fundamentais: nunca se separa o sujeito do predicado com uma vírgula e sempre se isola o vocativo entre vírgulas, surja no início, no meio ou no fim da oração. Quanto à conjunção «e», também nunca pede vírgula, mas às vezes pode levar vírgula antes ou depois por outros motivos, o que complica a coisa e isto não é uma aula de Português, nem eu sou especialista no tema — apenas aprendi a minha gramática, em tempos, e continuo a aplicá-la na minha comunicação diária.

Perguntará o leitor qual a relevância de tudo o que se acaba de dizer. Bem, uma língua serve para comunicar; para fazê-lo, convém que todos usem o mesmo código, do qual faz parte, além da ortografia, da sintaxe e da semântica, a pontuação, e já não é a primeira vez que tenho de ler a mesma frase duas ou três vezes num jornal ou numa revista para conseguir apreender o seu significado no meio de tantos pontos e vírgulas fora do sítio.

3 comentários a “Ponto e vírgula”

Parabéns pelas observações gramaticais. É uma “obra de misericórdia ensinar os ignorantes e corrigir os que erram”. Na actividade profissional visada o “nariz empinado” não aceita reparos. Quem diz que se deve aprender sempre? Alguém está equivocado…

Eu, lembro-me de quando fiz exame, de código para a carta de condução. E bem, me avisaram: “atenção às vírgulas”! E atenção, tive. O problema; é que as vírgulas apareciam, um bocado ao calhas mesmo entre o sujeito, e, o, predicado. Se calhar a culpa.
Não é só dos jornais. Nível de linguagem.

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