Categorias
Dias Passados

De Espinho à Granja nos carris das dunas

Por Gustavo Martins-Coelho

O comboio chega à estação e pára. Tu entras. Ele parte. Contigo. A única dúvida é: se duas pessoas se amam; o que é preciso mais?

Na estação seguinte, o comboio chega e pára. É o que ele faz sempre. Tu desces.

— Vou fumar um cigarro.

— Eu também.

— Não sabia que fumavas.

— Não fumo, mas, se tu fumas um cigarro, eu também o fumo. Passivamente.

Começam as questões difíceis. Vale a pena lutar por algo sem ter a certeza de que se o quer? Por que é que o corrimão das escadas rolantes corre ligeiramente mais depressa do que o degrau? Como foi que um pêlo púbico apareceu em cima do balcão?

O comboio parte de novo. Sem ti. Não se pode fazer esperar o comboio. Os atrasos custam dinheiro. Também diminuem a produtividade. Trabalhas, trabalhas, trabalhas e não sai nada.

Estou em maré de resolver assuntos pendentes. Pus em prática a teoria do quarto de hora. Saí de casa resolvido a tratar de quatro assuntos numa hora e meia. Por causa dos atrasos, voltei quatro horas depois só com um assunto resolvido. Tentando pôr a vida em ordem, mas está difícil.

Marrona, beta, aldeã, cientista, rebelde, suburbana, católica, feia, professora, executiva, comunitária, irmã. É melhor apostar tudo e perder do que ficar a ver os comboios passar. Uma má recordação é pior do que nenhuma recordação?

Eu teria esperado por ti. Mas por que é que perco sempre o autocarro? Atrás dum, vem outro.

Às vezes, dá-me uma vontade de largar isto tudo e recomeçar do zero, noutro sítio. Há dias em que me sinto assim, como se tudo à minha volta fosse estranho e não tivesse nada que me prendesse aqui. Nestes dias, quero é ir para bem longe.

Um comentário a “De Espinho à Granja nos carris das dunas”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *