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Ode à Petazeta

Por Hélder Oliveira Coelho [a]

Às vezes de sal, outras de pimenta. Às vezes doce, outras agre. As Petazetas desta vida pertencem ao grande grupo das artes performativas.

Vestem-se os melhores visons. Aprumam-se os cabelos e as lacas. Os habitués fazem-no de rotina. Os escaladores fazem-no de pimponice. Sacam do papillon, aprumam-se de preto e vão, quais pinguins, saltaricar os pescoços a partir do piolho. Os risinhos de sarcasmo e os comentários de escárnio quase abafam o palco. Saracoteiam as caudas à mesma velocidade a que sacam os bicos aguçados à sociedade.

No palco, faz-se o melhor. Dá-se o melhor. Brilha-se como se pode.

Não serão Petazetas. Mas todos sabemos que o palco de hoje não pode ser como o de ontem. Os homens de hoje não são como os de ontem. O dinheiro de hoje… já se adivinha.

Desculpo o desgosto dos puristas. Quem viu o palco brilhar, quem o viu explodir em sensações e êxito! A esses, eu até desculpo um escárnio relativo.

Mas às saltaricas de laço? Alguém lhes explique que a telenovela em que vivem é de má qualidade. Não agrada a todos. Antes pelo contrário. Aborrece.

Falo, pois, das últimas temporadas do São Carlos. Seja feita justiça a todos os artistas que pisam aquele palco. Neste clima em que parece que até a mãe se vende, assim a república tivesse mãe, o Teatro Nacional brinda-nos com pequenas pérolas, quase na totalidade de gente lusa. É um gosto escutá-los. A orquestra sempre sublime. Não é barato. Não é, não senhor. Mas não é mais caro do que o Justin Bieber. Assim houvesse quem ensinasse as nossas gentes um pouco mais de cultura musical. Mas esses filhos daquela que não tem mãe, não foram paridos pela sociedade. São defecados pelo que de pior nos consome.

Não houve outro período em que a «Ode à Petazeta» pudesse ser escrita, que não o Barroco. Vivemos um desgastante, decadente e quase vazio barroco estado de alma.

Vivaldi compôs um concerto para dois bandolins, que eu acho ser uma das mais enigmáticas obras deste compositor. RV532 [4], com três andamentos, Allegro, Andante, Allegro. A euforia contrasta com uma certa delicadeza ingénua no beliscar das cordas. Aquela curiosidade marota que nos deve guiar sempre, sob a aura quase magnânima de um observador externo que nos tenta abraçar e guiar no sentido do bom caminho. Sente-se a angústia sombria de quem desperta para a realidade. Os pequenos passos para o futuro surgem a medo. Mas a coragem para enfrentar e construir algo mais luminoso restaura-se.

Talvez o Barroco tenha tido os seus pontos positivos.


Nota:

a: Esta crónica, juntamente com a da semana passada [1], foram difundidas na rubrica «Teoria da Evolução» da Rádio Altitude [2] em 23 de Novembro de 2013, encontrando-se disponível em podcast [3]. (N. do E.)

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