Categorias
Dias Passados

Insensibilidade e autocarros

Por Gustavo Martins-Coelho

Os homens não deviam ser autorizados a fazer certas coisas. Repare-se, por exemplo, para perceber do que falo, nas toalhas de mesa nos restaurantes: uma pessoa sabe sempre que foi posta por um homem quando está do avesso. A probabilidade duma mulher pôr uma toalha de mesa do avesso é incomensuravelmente menor. Será simplesmente preguiça, ou uma enorme falta de sensibilidade?

Mas as mulheres também têm os seus momentos de insensibilidade. Por que é que teimam em usar roupa dois números abaixo do seu? Não percebem que isso só realça aquela gordurinha incómoda?

O 88 era um autocarro que ia do Castelo do Queijo à Alfândega. Agora chama-se 205 e fica-se por Campanhã. Das oito janelas do autocarro, cinco iam abertas. De nada vale o aviso em letras maiúsculas bem junto ao manípulo de cada uma delas: «AR CONDICIONADO — MANTENHA AS JANELAS FECHADAS». O ar condicionado lá ia bufando, mas, se já é difícil arrefecer um autocarro inteiro, imagine-se um autocarro com as janelas abertas.

Antigamente é que era bom. Na paragem ao pé de minha casa, os Volvo articulados faziam a linha 3, os Mercedes antigos a 21, os Mercedes novos a 78, os MAN a gás a 19 — e uma pessoa sabia sempre qual era o autocarro que vinha lá, mesmo antes de lhe conseguir entrever o número e o destino escarrapachados na frente. Depois, trocaram tudo, passou a haver só três linhas, 201, 203 e 502, e mudam diariamente as marcas dos autocarros que fazem cada uma. Assim, uma pessoa não se entende!

Acredito mais no que me diz uma pessoa irritada do que no que me diz essa mesma pessoa quando a calma a deixa filtrar as palavras que tem para mim. As palavras que saem nos momentos de irritação é que são as verdadeiras. É quando estala o verniz que se vê a qualidade da madeira que está por baixo. É quando uma pessoa está irritada que aquilo que ela pensa e sente lá no fundo e que lá por baixo fica, bem escondido por camadas sobrepostas das educação, empatia, bom senso e um apurado sentido do «politicamente correcto», como agora é tão habitual dizer-se, vem ao de cima. As barreiras conscientes que habitualmente se interpõem entre essas palavras e os lábios caem e estes deixam finalmente sair o que vai lá no fundo.

O mundo é feito de pessoas horríveis. A carapuça serve sempre à pessoa errada.

Um comentário a “Insensibilidade e autocarros”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *