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O Muro das Lamentações

Idiossincrasias da STCP

Por Gustavo Martins-Coelho

Não é só a CP que tem as suas idiossincrasias [1]. A STCP [2] também tem direito a uma quantidade delas. Hoje, vou debruçar-me rapidamente sobre uma megalinha que me é muito cara, por ser uma que uso com frequência: do Pinheiro Manso à Boavista.

Aviso já o leitor de que, se procura uma análise técnica sobre os princípios teóricos do transporte colectivo, está na coluna errada; o especialista no tema é o Jarrett [3]. Eu vou meramente relatar a minha visão pessoal sobre o assunto, na qualidade de passageiro. Não vou preocupar-me com estatísticas (até porque a STCP não as divulga), nem se a minha experiência de utilização é semelhante à da maioria dos restantes passageiros; sobretudo porque a qualidade da minha viagem poderia ser melhorada sem alterar consideravelmente a qualidade da viagem dos passageiros que não vão para o mesmo destino que eu.

Em primeiro lugar, as paragens. Para ir do Pinheiro Manso à Boavista, disponho de quatro linhas de autocarro: 201, 203, 502 e 503, três das quais (201, 203 e 502) param junto ao entroncamento da Rua do Pinheiro Manso na Avenida da Boavista, enquanto a quarta (503) pára na Rua de S. João de Brito, pouco antes desta entroncar na Avenida. Ou seja, na prática, para ir do Pinheiro Manso à Boavista, disponho apenas de três linhas, apesar de haver quatro, a não ser que queira confirmar antecipadamente o horário do 503, para verificar se chega antes de qualquer um dos outros três autocarros e então optar pela sua paragem. Se escolher a primeira opção, perco eficiência; se escolher a segunda, perco tempo e espontaneidade.

O mesmo problema ocorre no sentido inverso nas paragens do Bessa e do Foco: o 503 corre junto ao passeio, separado das restantes linhas, que usam o corredor central da Avenida da Boavista. Igualmente, o passageiro que queira ir do Foco ou do Bessa ao Pinheiro Manso tem de optar a priori pela paragem servida por três linhas ou pela paragem do 503; nem sequer ficam perto umas das outras. Bem sei que são uma ou duas paragens de distância apenas, respectivamente, mas poderá haver passageiros com sacos de compras, com dificuldades de mobilização, etc.; além de que o 503 partilha um percurso com o 201 mais à frente, no Viso, pelo que poderia ser uma alternativa para os passageiros que tivessem esse destino.

Em segundo lugar, o horário. Peguemos, a título de exemplo, no horário no Pinheiro Manso ao Domingo, pois a sua análise torna-se mais fácil, dado ser o dia em que há menor frequência de serviço. A primeira lição é de que a noite é para dormir: das 0h25 às 5h41, não há nenhum serviço (nem da rede da madrugada) no Pinheiro Manso. A segunda lição é de que, antes do pequeno-almoçoe depois do jantar, as pessoas têm muito tempo livre: a frequência torna-se tão baixa que apenas quem não tiver outra alternativa recorrerá ao autocarro. Mas a principal lição, porque mais surpreendente, é que, mesmo entre as nove da manhã e as nove da noite, acontece algo fenomenal: a frequência nunca é a mesma e está subaproveitada.

Senão, vejamos. Das nove às dez, passam sete autocarros, o que permitiram que passasse um a cada 8 minutos. Porém, o que acontece na realidade é o 203 perseguir o 201 de perto, com 4 minutos de intervalo, seguido do 502, 3 minutos depois, para depois ser preciso esperar 12 minutos pelo 503 e outros 11 pelo 201 seguinte. Mesmo 12 minutos não é muito, dirá o leitor, e com razão. Mas, se podia ser 8, por que tem de ser 12?

O problema agrava-se entre as dez e as onze. Já só há seis autocarros a passar nesta hora, o que daria um a cada 10 minutos. Mas não… Vem o 502, depois o 503 12 minutos mais tarde, depois espera-se 11 minutos e solta-se a cadeia: 201, 203 e 502 intervalados de 3 ou 4 minutos. E a seguir espera-se 23 (!) minutos por um novo 201…

Das onze ao meio-dia, passam novamente seis autocarros (um a cada 10 minutos, se a frequência fosse constante) e gera-se mais um intervalo de 23 minutos de espera, com a peculiaridade de haver dois (203 e 503) a passarem ao mesmo tempo, às 11h15!

A história continua da mesma forma o resto do dia: do meio dia à uma, espera-se entre 3 e 12 minutos, quando se poderia esperar sempre 8 minutos; da uma às duas, espera-se entre 3 e 23 minutos, quando se poderia esperar sempre 10 minutos; das duas às três, espera-se entre 1 e 11 minutos, quando se poderia esperar sempre 6 minutos; das três às quatro, espera-se entre 1 e 18 minutos, quando se poderia esperar sempre 7 minutos; das quatro às cinco, espera-se entre 1 e 12 minutos, quando se poderia esperar sempre 6 minutos; das cinco às seis, vêm dois (201 e 503) ao mesmo tempo e espera-se 17 minutos pelo seguinte, quando se poderia esperar sempre 7 minutos; das seis às sete, espera-se entre 2 e 13 minutos, quando se poderia esperar sempre 6 minutos; das sete às oito, espera-se entre 2 e 16 minutos, quando se poderia esperar sempre 8 minutos; das oito às nove, espera-se entre 2 e 18 minutos, quando se poderia esperar sempre 8 minutos.

Mas o mais escandaloso ocorre depois das nove. A frequência reduz-se, pelo que todos os autocarros são bem-vindos. O que faz a STCP? Manda o 503 e o 502 intervalados de cinco minutos, com meia hora de espera a seguir. Havia aqui o potencial de manter uma frequência de 12 minutos das nove às dez e de 20 minutos depois dessa hora, que se perde.

Em terceiro lugar, a pontualidade. A STCP assume publicamente que o horário pode variar mais ou menos cinco minutos. Como referência, a tolerância na Holanda é de dois minutos e não de cinco. Isto já nos diz alguma coisa. Mas, além disso, quando a frequência é de 10 minutos, se um autocarro atrasar cinco e o seguinte adiantar cinco (o que é perfeitamente possível, dado que o atraso do primeiro significa que o segundo parará menos vezes, pois as paragens terão tido menos tempo para «encher»), isso significa que acabarão a passar os dois ao mesmo tempo, gerando uma frequência de dois autocarros a cada 15 minutos, em vez dum a cada 10 minutos.

Como disse, esta é meramente a constatação de factos do meu quotidiano. Pretendo abordar novamente o assunto no futuro, sob uma perspectiva mais geral.

2 comentários a “Idiossincrasias da STCP”

[…] Na semana passada, terminei a minha apologia do transporte colectivo [1] com um desafio ao leitor: abandonar o preconceito e experimentar o transporte colectivo. O preconceito é real e vê-se, por exemplo, num maravilhoso trecho do blogue «A nossa terrinha» [2], cuja leitura recomendo, ou nos míopes corolários extraídos pela autora das premissas apresentadas num outro artigo recentemente publicado no «Porto 24» [3]. Mas o preconceito não é totalmente infundado: de facto, nem tudo vai bem no reino da Dinamarca e a visão negativa do transporte colectivo resulta da generalização (em boa verdade, injusta, por vezes) de situações particulares, mas que são reais e que também já abordei neste blogue [4,5]. […]

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