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Crónicas Altitude

Um longo caminho a percorrer…

Por Hélder Oliveira Coelho

A semana que passou foi de grandes perdas. Seria impossível não escrever sobre elas.

Lembro-me de ter escrito em tempos que o Homem não consegue conceptualizar a ideia de morte [1]. O conceito de não-existência transcende a capacidade humana de entendimento do universo. É fácil fantasiar sobre o tema, todavia, não é de todo acessível fazer uma passagem do plano das ideias para a vida real. A fé surge como uma ferramenta quase indispensável para suportar a ausência definitiva de quem se perdeu. A saudade transcende-se no momento em que a dor deixa de ser acompanhada apenas por lágrimas, mas antes com o sorriso de quem guarda os bons momentos… A medicina dos nossos dias continua a ser uma ferramenta para contrariar o curso natural das doenças. Mas as limitações continuam a ser incontáveis. O nosso esforço diário conquista pequenas grandes vitórias para os doentes, para as famílias, até para os nossos egos. No entanto, a consciência das limitações surge tão mais rápido, quanto mais depressa há a percepção de que a doença está a vencer. Há um longo caminho a percorrer.

Tudo parece ser tão mais injusto quanto mais jovens são os doentes. Cada morte deixa uma profundíssima cicatriz a todos os agentes envolvidos. As famílias e os amigos ficam absolutamente desamparados. Há não muitos dias, perdi uma amiga neste contexto. Era uma miúda amorosa, «cheia de vida», como se costuma dizer. Confesso a falta de coragem para ir visitá-la. Há momentos em que sinto que a ignorância é uma bênção dos céus. Admiro muito todos os meus colegas que fazem clínica diariamente. Estar fechado num laboratório permite-me ser apenas um desvendador de notícias. Às vezes boas, outras (a maioria) más. Porém, não me cabe fazer chegar a notícia ao doente, nem tão pouco cuidar dele depois. Reconheço a minha grande debilidade nesse capítulo. Foi muito provavelmente o que mais pesou no momento de escolher a especialidade. Deixo, portanto, um beijinho à Rita. Um beijo com saudade, mas na certeza de que, um dia, nos encontraremos.

O Nobel da Paz Nelson Mandela também partiu esta semana. Adivinhava-se que pudesse acontecer. No entanto, nunca se está, de facto, preparado para a notícia. O que Mandela significa para o mundo actual é muito mais do que um homem pode prender à sua existência. Mandela pertence ao grupo daqueles que, «por obras valerosas, se vão da lei da Morte libertando». Espero que, no momento em que o perdemos, perdurem mais as ideias de paz, tolerância e respeito no seu exemplo, do que as palavras bonitas a respeito do seu exemplo.

Por fim, quero deixar uma nota de amizade com votos de sucesso a todos os colegas que durante a semana que passou e as que se seguirão escolhem a especialidade médica em que trabalharão [2, 3]! Sucesso para todos… Temos um longo caminho a percorrer…

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