Categorias
Olho Clínico

Metamorfose

Por Sara Teotónio Dinis

A maioria dos meus colegas — tal como eu — passou o ensino Secundário a queimar as pestanas para conseguir uma média final superior a dezoito valores e assim poder garantir a entrada no curso de Medicina. Este esforço obriga a grande concentração e a alguns sacrifícios que nos fazem roçar a exclusão social.

O primeiro ano de curso começa assim com uma sensação de triunfo e vitória sobre os livros. Nas primeiras aulas, são-nos dadas as boas vindas em êxtase, é-nos dito repetidas vezes que somos «especiais» porque somos «muito inteligentes», porque estudámos enquanto os nossos colegas andavam na borga, sacrificámos os nossos tempos livres em prol dum bem maior — a nossa futura e brilhante carreira de especialista —, mas, acima de tudo, porque vamos «salvar vidas». Saímos desta sala de aulas «dourada» e somos apanhados no corredor por um grupo de doutores trajados de negro, que nos põem a fazer todo o tipo de coisas ridículas e nos dizem que «somos um orgulho» porque escolhemos «a melhor faculdade de Medicina do país».

Este primeiro conceito que nos é incutido é rapidamente substituído por uma espécie de pânico incipiente — de facto, se, por um lado, muito muda, muito fica na mesma. Já não sentimos a pressão para «entrar» naquele mundo — já tínhamos conseguido isso; mas, se no Secundário nos queixávamos por ter que estudar cem páginas duma matéria para um teste, naquele primeiro ano somos confrontados rapidamente com o drama de dar duzentas páginas duma cadeira por aula. Portanto, embora o cenário e o contexto mudem, as circunstâncias de aprendizagem continuam bastante exigentes, com a agravante de virem acompanhadas por uma decepção muito peculiar:

— Mas, se eu estou aqui para aprender a salvar vidas, por que raio tenho eu que voltar a ter Matemática e Física?

A onda avassaladora de pânico provocada pela Anatomia afoga rapidamente estas dúvidas existenciais e assim voa o primeiro ano, dividido entre o rapto da boémia e o susto perante todo um outro nível de avaliação.

O segundo ano é um ano de aperfeiçoamento da técnica de decorar — nomes de bicheza, formas celulares, vias de transmissão nervosa — todo um aparente rol de inutilidades que continuam a teimar em não nos ensinar a salvar vidas. Naquele túnel escuro e frio — onde eu achava que me tinham enganado e obrigado a continuar — apenas a aula de Fisiopatologia prática nos incentiva o raciocínio lógico, ensinando os edemas, as febres, as cascatas da coagulação. O desenho ténue do paciente começa a definir-se, mas onde está ele? Por que não nos deixam ir salvá-lo, ao pobre coitado, deitado numa cama daquele hospital grande que fica do outro lado da cidade?!

No terceiro ano está a chave, ouvimos dizer. O «primeiro ano clínico», inaugurado com a Propedêutica Médica e Cirúrgica, onde nos dão a conhecer a semiologia e nos introduzem finalmente aos corredores dos serviços hospitalares, chega por fim. São dias passados na perspectiva de vestir a bata e fazer diagnósticos dificílimos e brilhantes nas consultas partilhadas com os especialistas. Que maravilha olhar para o doente e nele descobrir sinais aprendidos nas aulas teóricas! No maléolo tibial interno o sinal de Godet, no foco mitral o sopro cardíaco, nas mucosas a palidez… Renasce em nós a magia e a centelha da nossa paixão! O estudo começa a ser interessante e útil.

O quarto ano segue-se na ordem numeral e começamos a decifrar separadamente as especialidades médicas e cirúrgicas. Caminhamos naqueles corredores cada vez mais à vontade, cruzando-nos com todo o tipo de personalidades de bata branca. Dizem-nos os colegas num sussurro:

— Lá vai o Senhor Professor de…, muito importante no serviço e no hospital.

E nós cumprimentamos:

— Bom dia, Senhor Professor!

Mas ele olha para nós de soslaio e não nos retribui o cumprimento. Para além de procurar os sinais clínicos e traduzir em sintomas as queixas dos doentes, começamos a aprender a arte da relação médico-doente, aquela coisa abstracta dada nas aulas de Introdução à Medicina no primeiro ano. Começamos a verificar, mais vezes que as pretendidas, que o médico ouve os sintomas, mas não escuta as ânsias; que a consulta é interrompida vezes sem conta; que os doentes não esclarecem as suas dúvidas por vergonha e medo.

No quinto ano, podemos começar a sentir necessidade de discutir assuntos extra-curriculares que nos dizem todo o respeito. Que é essa coisa agora de se estarem a formar médicos a mais? Quer dizer que não vou ter vaga para fazer a minha especialidade depois de completar o curso? E como é aquela história de abrir dois cursos novos de Medicina com tempo de formação inferior a seis anos? E por que raio a Prova Nacional de Seriação continua igual passados trinta anos, baseando-se numa bibliografia estrangeira?

O sexto ano chega com a certeza desse exame gigante que decide a escolha da nossa especialidade… com a noção de muita má prática clínica e médica… com a insegurança do futuro. Neste último ano, essencialmente clínico, já só há uma aula teórico-prática e um seminário por semana. A frequência clínica diária começa a ensinar-nos que muitas vezes o utente do Serviço Nacional de Saúde está doente por sua «culpa» — seja porque gosta de fumar, de beber ou de comer; seja porque gosta de se esquecer de que devia exercitar-se regularmente.

E toda esta nova consciência origina metamorfoses ideológicas naquela vontade tenra e apaixonada de «salvar vidas».

O texto já vai longo, pelo que voltarei futuramente a reflectir aqui na Rua sobre esta nossa transformação.

Um comentário a “Metamorfose”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *