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O Muro das Lamentações

Má ciência ou nenhuma ciência?

Por Gustavo Martins-Coelho

Quando apresentei a minha proposta de doutoramento, fizeram-me uma pergunta difícil: se utilizar a entrevista de peritos como fonte de dados numa investigação científica não condiciona a objectividade da mesma. A mesma questão, embora vestida doutra forma, tem-me assombrado de forma recorrente desde que a Filipa fez o mestrado: onde acaba a ciência e começa o jornalismo?

Entrevistar um perito significa, de facto, pedir a opinião a uma pessoa. É verdade que, em princípio, um perito terá uma opinião mais válida do que um leigo sobre o tópico em que é especialista. No entanto, essa maior validade não significa que o perito esteja sempre certo. Do ponto de vista lógico, esta situação configura uma falácia de autoridade [1].

Para além dessa limitação do próprio perito, o número de peritos disponíveis para serem entrevistados dificilmente configura uma amostra suficiente para se tirar alguma conclusão. Por este motivo, a entrevista de peritos fica sujeita a todo o tipo de problemas metodológicos que surgem em trabalhos feitos com amostras pequenas.

Por outro lado, há temas que dificilmente podem ser objectiváveis, pelo menos no estado do conhecimento actual. É cada vez mais reconhecido o papel da investigação qualitativa como ferramenta para dar resposta a questões, sobretudo do ramo das ciências sociais, mas não só, para as quais seria difícil achar medidas quantificáveis susceptíveis de fornecerem a mesma informação. Neste sentido, a solução passaria por reconhecer a insuficiência dos métodos quantitativos e adoptar outras estratégias, passando a entrevista a peritos — e não só — por ser uma das abordagens possíveis.

Fica então a questão: devemos utilizar as ferramentas de que dispomos, mesmo sabendo das suas limitações metodológicas, para produzir conhecimento científico que poderá enfermar de erros graves? Ou, pelo contrário, devemos assumir que há domínios do saber que são «caixas negras» que não podem ser investigados pelo método científico?

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