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Dias Passados

Casamento. Paixão. Camafeu. Ponto.

Por Gustavo Martins-Coelho

Sentei-me ao computador para te escrever. Já ninguém faz nada com uma folha de papel.

Esqueci-me do que queria dizer. Esta minha memória… A idade já pesa!

Serei aquele? Acho que nunca me senti tão inseguro como agora. O único órgão que quero roubar-te é o coração. A única pessoa perante a qual me ajoelharei de livre vontade será a mulher que casar comigo, no dia em que lhe pedir a sua mão.

Chega uma altura da vida em que nos fartamos de montanhas-russas emocionais. Talvez seja a isso que chamam entrar na idade adulta. Ou talvez não. Não sei bem.

Sou muito exigente no amor. Preciso duma mulher que me dê muito carinho, disponibilidade total e dedicação absoluta. Em troca, dou-me inteiramente, duma forma a raiar o estúpido. Nunca encontrei nenhuma que aceitasse o negócio. O que não tem de ser não tem de ser e não adianta dar empurrões ao destino. No máximo, consegue-se ser-se empurrado de volta. À bruta.

— Adoro-te! — disse ela, e eu sorri; um sorriso imperceptível, mas terno.

Ela sorriu também e, nesse momento, o Sol brilhou mais intensamente, as nuvens dissiparam-se e a vida pareceu-me um momento eterno em que choviam pétalas de flores garridas.

Perguntou-me onde estava o meu cavalo branco. A miúda conhece-me há meia dúzia de dias e já manda bitaites! Eu sou um cavalheiro, mas só quando estou diante duma dama. A melhor forma de não se ser tratado como um adolescente irresponsável é não agir como tal.

Mas isto de estar apaixonado, no fundo, é como ser caloiro duma universidade. Em ambos os casos, acaba-se a fazer coisas impensáveis noutras circunstâncias. E, de repente, quando até estamos a começar a gostar, tudo acaba. Sofremos uma lobotomia e agimos como grandiosos palermas. Tentamos enganar-nos a nós mesmos, com mais sucesso do que enganamos os outros. Um adeus com sabor a até já.

Uma pessoa habitualmente arguta e espirituosa fica sem saber o que dizer para causar boa impressão à moça. Quando, de repente, se faz luz e sai uma frase medianamente esgalhada, acha que acabou de encontrar a obscura chave do seu coração.

«Seu», como quem diz «dela»; horríveis pronomes, que induzem mais em erro do que simplificam a vida de quem quer falar ou escrever! Por que é que a gramática não anda a par com o uso?

Acaba a fingir que é o Cavaco, só para agradar… Fica orgulhoso de si mesmo! São as pequenas coisas, mais do que as outras, que fazem a vida valer a pena.

Revendo mentalmente conversas passadas, em busca de frases épicas que poderia ter dito, se as condições fossem outras.

— Um homem que só sabe apreciar a beleza física numa mulher não a merece.

— É, dizem todos isso, mas depois ninguém quer ficar com um camafeu.

— Mas, como tu não és um camafeu, não tens de te preocupar com isso. De qualquer forma, há muitos camafeus casados…

Não se usa a palavra «camafeu»! É demasiado televisiva!

O aspecto é o nosso cartão de visita. Mas não passa disso. Se não passa pela cabeça de ninguém fechar negócio logo após trocar os cartões, só porque estão escritos em Comic sans, por que há-de passar pela cabeça dalguém ir atrás da pessoa fisicamente mais apetecível, sem mais?

Uma mulher é muito mais do que uma cara bonita e um corpo desejável. Se for também isso, tanto melhor. Mas, se for só isso, não chega. E, se não for isso, provavelmente será muitas outras coisas. Não tenho dúvidas de que há homens muito mais felizes com o seu camafeu do que outros que não conheço.

É o destino!

3 comentários a “Casamento. Paixão. Camafeu. Ponto.”

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