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O meu empreendimento – Cavalos: solução para Portugal?

Por Hugo Pinto de Abreu

Na minha última publicação [1], aliás um pouco delirante, havia chegado à conclusão (se houve uma conclusão já se aproveita alguma coisa!) de que tinha, numa recente viagem pela EN1/IC2 (e regresso pela A1), empreendido. Vejam só!

Como quem me conhece sabe, eu considero-me o oposto do modelo de jovem empreendedor não-sejas-lamechas emigrar-é-que-é, daqueles «jovens empreendedores» que vivem de subsídios do Estado, ou pior, dos favores (de uma empresa municipal) do partido, mas que estão sempre prontos a citar Thatcher [2] sobre como o socialismo acaba quando acaba o dinheiro dos outros. São os mesmos que têm uma citação de Sá Carneiro [3] sempre à mão, esse grande timoneiro [4] que queria que o PSD fosse admitido na Internacional Socialista.

Há quem me diga que estas referências a Sá Carneiro começam a ser excessivas. Concedo que não posso bater sempre na mesma tecla: também não sou o empreendedor sempre pronto a citar Adelino Amaro da Costa, «A Juventude não é instalada!», que fez o curso (?) numa universidade duvidosa e que acabou como director distrital na Segurança Social, ou lugar equivalente. Como sabemos e o CDS nos faz sempre questão de lembrar, o Estado não cria emprego, quem cria emprego são os empresários, as empresas, o país que trabalha!

Mas voltemos aonde ficámos no nosso prelúdio da semana passada.

Uma das hipóteses macroeconómicas que tem, embora implicitamente, tido mais impacto na nossa vida corrente é a dos deficits gémeos: haveria uma tendência para que o deficit da Balança Comercial e o deficit Orçamental «andem de mãos dadas». Também por isso, a grande insistência em tornar o nosso saldo da Balança Comercial positivo. Há outra razão: dado que o deficit Orçamental e a dívida pública são expressos em função do PIB [5], e tendo em conta que as importações e as exportações são elementos dessa métrica (com sinal negativo e positivo, respectivamente), reduzir as importações e aumentar as exportações é uma forma de potencialmente reduzir o deficit e a dívida pela via do denominador.

Colocando a questão de uma forma mais simples, os Portugueses têm sido sensibilizados para a virtude da exportação e, embora não tão enfaticamente, para as ameaças da «excessiva» importação. Faz parte do pacote para fazer com que os Portugueses deixem de «viver acima das suas possibilidades».

Neste quadro, qual foi, afinal, o meu empreendimento? Foi um empreendimento teórico, como não poderia deixar de ser. Eu sei que isto não faz o País andar para a frente, porque quem faz avançar o País é quem cria emprego, e quem cria emprego são os empresários, as empresas, o país que trabalha!

Os cavalos — sim, esses mesmos, os equídeos — podem ser uma solução para Portugal. Porque não promove o Governo um retorno ao cavalo como meio de transporte privilegiado? As vantagens são inúmeras, como veremos.

Desde logo, muito poucos automóveis são produzidos em Portugal, pelo que isso poderia significar uma grande poupança nas importações. Além do mais, muitos automóveis são produzidos, como sabemos, na Alemanha. Que grande lição, que grande vingança! É bem feito para a Merkel!

Quanto os equídeos, já os temos no nosso território e podemos criar uma política de fomento do cavalo e da égua. Não que não haja muitos, mas cada português deve ter direito ao seu cavalo e/ou égua (sem discriminações de género). Há a possibilidade de formarmos um verdadeiro cluster do cavalo, e as economias de escala e o saber-fazer podem fazer-nos o exportador mundial de referência de equídeos. Conseguem imaginar a alavanca de regresso ao campo que os cavalos podem representar?

É certo que os cavalos não podem andar na auto-estrada (mas vejo tantos!), mas isso não me parece um problema. Como eu verifiquei e qualquer um pode verificar, nas nossas auto-estradas de vez em quando passa um, e mesmo dois, e por vezes, imaginem, até passam três automóveis! A esmagadora maioria dos utilizadores da rodovia está já nas Estradas Nacionais, por isso não haveria impactos negativos adicionais para a viabilidade económica das nossas auto-estradas (não que muitas das concessionárias não tenham taxas de retorno obscenas garantidas).

O efeito nos combustíveis é também de ter em conta. Ao generalizarmos o cavalo como o nosso companheiro do dia-a-dia, reduzimos o recurso aos combustíveis fósseis, especialmente ao petróleo, que, como é sabido, temos que importar.

E, por fim, o efeito moralizador. Chega de Portugueses a viver acima das possibilidades! Basta de peixeiras, trolhas e plebeus em geral a andar de automóvel. O automóvel é para quem pode. Os outros Portugueses que vivam em cima do cavalo, da égua, até mesmo do asno, do burro, ou do parceiro que melhor lhes aprouver para os seus caminhos.


Epílogo

Nota ao leitor desprevenido: Chamo a atenção ao leitor desprevenido que o autor das crónicas Docendo Discimus anda com doses de ironia muito perigosas. Queira por favor (re)ler o texto tendo em conta este nosso apontamento.

Nota às gerações futuras: Por vezes acho que, mais dia, menos dia, estas publicações vão fazer com que seja encontrado numa valeta com um ou dois tiros na nuca. Caro leitor, caro amigo, asseguro-lhe que não estou envolvido em tráfico de estupefacientes, armas, seres humanos ou qualquer outra actividade ilegal. Não tenho dívidas de jogo (nem de nenhum outro tipo). Por isso, não acredite na primeira história que lhe venderem sobre o meu assassinato. Fica a pista para os investigadores. Gustavo [1], podes ficar com os meus CD do Rimsky-Korsakov.

2 comentários a “O meu empreendimento – Cavalos: solução para Portugal?”

Hugo, cuidado com isso! Se alguém te der dois tiros na nuca e te deixar numa valeta, mencionares-me assim em público como teu herdeiro torna-me, aos olhos da polícia, o principal suspeito!

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