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Indignados de trazer por casa

Por Ana Raimundo Santos

Portugal é, por excelência, um país de pessoas indignadas. No entanto, a indignação do português comum termina quando demonstrá-la significa ter de fazer algo mais do simplesmente reclamar, dizer que está tudo mal, e que se está contra o estado a que o País chegou.

A Sara [1] e o Gustavo [2] têm demonstrado ser a exceção, estando a envidar esforços no sentido de fazer ouvir a sua voz e a de mais 166 médicos internos [3], que, no último mês e meio, foram vítimas da falta de organização e comunicação magistrais que existem neste País.

Mas, questionar-se-á o leitor, só existem 166 médicos internos neste País à espera de dar continuidade à sua formação como médicos especialistas, que um dia serão? É uma questão pertinente e justa, à qual prontamente respondo que não. Os médicos internos a terminar o ano comum neste momento rondam os 1400. Todos, ou quase todos, se insurgiram e indignaram no sentido de protestar a respeito da desorganização de que forma vítimas. Até aqui, nada de estranho ou preocupante. O mesmo não se pode dizer relativamente à inércia que a esmagadora maioria teve [4], e mantém, face a uma efetiva reclamação organizada por alguns dos seus pares.

Considerando que estamos em Portugal, país conhecido como «de brandos costumes», que é como quem diz «façam o que vos apetecer que, no fim, nós diremos que sim a tudo», esta triste atitude, ou falta dela, por parte destes futuros especialistas nalguma área da Medicina, é apenas mais do mesmo a que estamos habituados neste cantinho à beira mar plantado.

No entanto, esta inércia e falta de voz própria em que os referidos médicos internos têm estado a demonstrar ser profícuos tende a preocupar-me e, até mesmo, assustar-me. É inevitável pensar se esta falta de atitude é o reflexo da postura destes futuros médicos especialistas perante a vida, a sua profissão e os seus doentes. Perdoem-me se sou injusta, mas não me peçam confiança num médico que não luta por si próprio. Como posso esperar que um dia, se for necessário, algum destes médicos, que hoje se acomodam perante a sua própria realidade e o infortúnio de serem apanhados na curva da desorganização das entidades competentes, lute por mim, pela minha saúde, pela minha vida, se não tem a vitalidade e a coragem necessárias para lutar pelo seu direito mais básico — o de dar continuidade à formação iniciada há sete anos atrás, quando entraram nas faculdades de Medicina onde se licenciaram, e tornarem-se nos especialistas que tanta falta fazem a Portugal e aos seus habitantes.

Infelizmente, neste caso, como em tantos outros, estamos perante mais um grupo de indignados de trazer por casa que nem para o próprio umbigo são capazes de olhar, que não lutam por si e pelos seus direitos, seja por que motivo for. Alguém que não é capaz de lutar por si jamais será capaz de lutar por outrém! Eu quero e, acima de tudo, o País precisa, de médicos capazes de lutar até ao fim pelos seus doentes.

Perdoem-me qualquer indelicadeza ou injustiça. Mas falo com propriedade porque, quando me senti injustiçada e senti os meus direitos violados, estive na linha da frente para fazer ouvir a minha voz e a dos meus colegas de faculdade. Em Março de 2005, a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa esteve encerrada durante 36 horas, o maior período desde o PREC, e eu estive lá para, juntamente com os meus colegas, lutar pelos direitos que estavam a ser violados. Aqui fica uma amostra daquelas 36 horas de luta que fizeram esquecer quaisquer divergências em prol do bem comum:

Caros médicos internos, lutem por vocês, pela vossa formação, e pelos vossos direitos, para um dia poderem fazê-lo pelos vossos doentes. Se não o fizerem, ninguém o fará por vós!

5 comentários a “Indignados de trazer por casa”

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