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A trotineta

Por Hélder Oliveira Coelho

Comprei uma trotineta. Em pequeno, lembro-me da minha mãe e da avó me contarem a história do velho, o rapaz e o burro. Da tradição oral, foi Sophia de Mello Breyner quem reescreveu o conto. Dizia eu, comprei uma trotineta. Na minha última viagem a Paris, entre a gente bem vestida e as esplanadas em pleno Inverno, encontrei quem vagueasse junto ao Sena em pranchas, skates, patins, trotinetas; gente de todas as idades.

No conto de Sophia, nada que o velho tomasse por iniciativa fazer era bem encarado. Todos sabemos que a margem de manobra de um velho é curta. Já o ângulo de visão da sociedade é ainda mais curto. Se, por um lado, todos estamos sempre preparados para criticar o parceiro do lado, por outro, há coisas que não se podem fazer. Mais do que a crítica avulsa que o conto lembra, é a crítica assertiva e justa que nos persegue.

Houve tempos em que ser velho era quase uma cátedra. Eram amados, respeitados, as famílias quase se digladiavam para reclamar pelo direito de cuidar do seu próprio velho. Hoje, o velho é um estorvo, um incómodo, sorvedouro de cuidados e de dinheiro. Esses seres inúteis que vivem dos nossos descontos para a segurança social. Em suma, devíamos todos odiar os velhos, como a Mafalda odiava a sopa [1] e eu odeio chineses [2].

Os humoristas do grupo «Gato Fedorento», em tempos, fizeram uma rábula que defendia que depositássemos os nossos velhos num velhão [3]. Ora, que boa ideia! Limpar esta sociedade de todos quantos são velhos inúteis. Enfim, falemos do que verdadeiramente importa, comprei uma trotineta. Estive recentemente no País Basco e por todo o lado se via gente de todas as idades a circular com skates e trotinetas. Pensei que era uma mania parisiense, mas pelos vistos não.

O Júlio Isidro, pessoa que dispensa qualquer apresentação, um desses dinossauros televisivos… Houve tempos em que gostei muito dele; outros em que nem por isso, achava-o enfadonho. Mais do que gostar ou não, tenho por ele muita estima e consideração. Afinal, faz parte do imaginário de todos nós e é um excelente profissional. Um dia, o sr. Júlio Isidro respondeu a uma das minhas dúvidas existenciais de infância.

— Quando se é velho?

A resposta, para mim, era óbvia: só existiam duas velhinhas em casa, as minhas bisavós. (Atente-se que eu sou do tempo em que os velhos ainda não eram estorvo, eram amados e cuidados até partirem em paz. Deixavam a saudade e o sorriso nas nossas almas. Nunca o sentimento de inutilidade). Logo, é-se velho quando se é bisavô. Todavia, os meus primos eram já pouco novos. Não queriam brincar comigo, logo, eram velhos. Eis que Júlio Isidro diz:

— Velho é todo aquele que tenha mais dez anos do que nós, tenhamos nós que idade tivermos!

Uma definição que me serve muito bem. Ou, pelo menos, serviu, até que os pequenos bebés que eu vi nascer aos dez anos hoje me acham um velho.

Não sei quanto tempo durará o meu estado de graça. Quantos dias terei que contar até que toda a sociedade me olhe como um velho? Quantos bebés mais me acharão um estorvo, um esterco, um sorvedouro de dinheiro e cuidados?

Comprei uma trotineta. Se a tivesse comprado em Paris, Barcelona, Bilbau, Londres, Madrid, pouco importaria. Mas, há dias, comprei uma trotineta em Portugal. Sou velho de mais para andar de trotineta, segundo alguns. Velho não serei, dizem outros, mas ficarei ridículo.

Espero viver tempo suficiente para que o meu espírito não envelheça. Espero viver tempo que baste para que a sociedade onde vivo volte a amar, respeitar e acarinhar os velhos. Viver quanto baste para que não se diga «velho» em tom envergonhado, substituindo por «sénior», «maduro» ou «veterano».

Eu comprei uma trotineta. Espero poder andar nela muito tempo.

3 comentários a “A trotineta”

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