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Da mansidão

Por Hugo Pinto de Abreu

Indubitavelmente, um dos discursos mais poderosos da história da Humanidade é o «Sermão da Montanha» [1], durante o qual são enunciadas as oito beatitudes (cf. Evangelho de Mateus, Capítulo V, versículos 3-12), cada qual associada à sua consequência (alguns poderiam ver aí recompensas, mas creio não ser correcta tal visão). Por exemplo, «Bem-aventurados os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia» ou «Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus».

Uma destas bem-aventuranças sempre me impressionou, nomeadamente a consequência que se lhe é associada, talvez precisamente por ainda procurar ver um nexo de merecimento e uma lógica de recompensa: «Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra». Ora, não é uma promessa mundana, que parece ter tão pouco de espiritual? Herdar a Terra?

Como referi, esta primeira questão resolve-se na medida em que se afastar a ideia de recompensa e se adopte a de nexo de consequência (diria até consequência lógica) entre mansidão e herança da Terra.

Excelente! Mas será verdade?

Gostaria de discutir o assunto na perspectiva do pensamento de Nietzsche, mas confesso que não tenho, nem de perto nem de longe, os conhecimentos necessários sobre este filósofo para sequer tentar. Talvez algum dos comentadores, mais versado neste controverso mas incontornável pensador alemão, nos queira presentear com alguma reflexão.

Numa perspectiva evolutiva do Homem, fará sentido? Note-se que o verbo utilizado justifica particularmente uma análise de muito longo-prazo: os mansos deveras herdam a Terra? Ou seja, há algum tipo de selecção (sobre)natural que faça os mansos não conquistar, mas sim herdar a Terra?

É difícil dar uma resposta minimamente científica a esta questão (mas aceito sugestões!), por isso vou por uma via de experiência pessoal e convicção: cada vez mais me convenço que efectivamente é assim: os mansos herdarão a Terra.

Mas isto soa tão mal, não é assim? «Os mansos» chega a ter uma conotação de marido enganado, de estúpido que não vê as coisas acontecer, de fraco que tudo permite. «Ser manso» nos negócios é mais ou menos o equivalente a ser um perdedor. Há até a célebre expressão idiomática «ser comido por lorpa», que deve ser mais ou menos um corolário da mansidão.

Penso, todavia, que há aí algum equívoco. Há algum tempo e apenas por uns meses, pratiquei Krav Magá [2], um sistema de defesa pessoal que insiste, mais do que em aspectos físicos, na componente táctica de cada confronto, tendo subjacentes algumas estratégias (e.g. golpe e retirada, imobilização por meios não letais, etc.).

Porventura, a coisa mais interessante que terei aprendido, por ir frontalmente contra a nossa prática comum e intuitiva, é a de que, em caso de confronto iminente, se devem evitar ameaças ou qualquer tipo de expressão de fúria ou irritação, essencialmente por dois motivos:

  • Isso levar-nos-á a abandonar qualquer tipo de consideração táctica e conduz ao combate por instinto, muito mais dependente da força e do acaso;
  • A perda do efeito surpresa, a perda da vantagem da primeira jogada, que é, especialmente em confrontos deste tipo, absolutamente decisiva.

De certa forma, é assim que encaro a virtude da mansidão. Não a vejo como uma espécie de estoicismo nem de indiferentismo relacional, mas sim algo que está intimamente relacionado com a moderação do nosso orgulho, que é, frequentemente, o nosso maior inimigo [3].

Tantas vezes somos como esse rapaz que, acompanhado pela namorada, ouve algum grupo de delinquentes insultar o bom nome a boa fama da sua donzela: o que fazer? A mansidão, o contrário de ferocidade, implica avaliar a situação pensando não tanto em si, mas nos outros: os agressores aparentam estar sob o efeito de alguma substância? vale a pena «sujar as mãos» por causa dessa ofensa? é exequível uma resposta física? com que fim? é possível infligir e neutralizar o(s) sujeito(s) sem lhe(s) causar lesões permanentes? é possível evitar danos a terceiros caso a intervenção corra mal?

Já tive a oportunidade de aqui referir que as batalhas que travamos no exterior são, habitualmente, reflexos de batalhas interiores [4]. E estas últimas são deveras as mais importantes e as mais difíceis, e é a pensar nas batalhas mais difíceis que se me torna mais claro o sentido da mansidão.

Temos que ser mansos connosco mesmos! Isso significa complacência? Não. Mas, na nossa esfera interior, não raras vezes achamos, tal como quando perante uma ameaça física externa, que, com alguma raiva e agressividade, tudo se resolverá. Temos o instinto de ladrar, mas não somos cães, e jamais esquecemos um latido que nos toque. Levada ao extremo, a ferocidade auto-inflingida pode terminar em suicídio.

Os mansos herdam a Terra? Creio que sim. A ferocidade é um mecanismo natural de defesa que, todavia, nos pode facilmente trair e dominar. Dominar significa «ser senhor», ser Homem, submeter o instinto ao império da razão. Não queremos ser dominados por um instinto animal, mas sim assegurar que a nossa melhor arma, a inteligência, seja senhora das nossas acções. Assim, a mansidão será um instrumento utilíssimo para responder aos desafios mais elevados que o ser humano é chamado a enfrentar.

Talvez seja por isso que os mansos herdam a Terra. Não têm que a conquistar visivelmente. Não têm que se exasperar nessa empresa. Com tempo e paciência, as feras acabam por morrer e deixar-lhe as conquistas por herança. Com sorte, até se lhes faz um funeral bonito e se lhes escreve um elogioso verso na lápide da campa.

2 comentários a “Da mansidão”

Para o Nietzsche, a moralidade judaico-cristã era a moralidade do escravo. Considerava que a sua sobreposição à moralidade clássica era a grande vingança dos Judeus sobre os Romanos. Claro que o Sr. Nietzsche nunca viveu aquilo que pregava, como um filósofo deve, e daí as suas palavras não passarem de belos vaizios retóricos

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