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Dias Passados

Título errado

Por Gustavo Martins-Coelho

É muito difícil surpreender-me.

Um dia, perguntaram-me se a lei era para cumprir. Poucos dias mais tarde, disseram-me que não devíamos propor a introdução duma nova regra racional e favorável, porque era preferível continuar a quebrar as regras que existiam. Quando não sei se ria ou se chore, costumo preferir rir. É mais saudável.

Dizem-me que tenho cara de beto, por isso é natural que me assaltem. A princípio, até fico chateado. Mas, no fundo, até gosto. Sou beto e com muito orgulho.

Vou comprar um carro maior para andar mais seguro. Quando o tempo está mau, é melhor ir com o carro pequeno para não ter um acidente e estragar o grande. Estou a ser ultrapassado por todos, inclusive pelos que não queriam ir depressa. A história repete-se com uma precisão de relógio de corda!

Do que eu gostava mesmo era que alguém me explicasse qual é a graça de passar umas horas consideráveis enfiado num divisão escura com luzes estroboscópicas que danificam a retina por piscarem tão rapidamente, a fumar (nesse tipo de local, todos são fumadores — activa ou passivamente, mesmo que seja proibido) e a beber, sendo empurrado e pisado daqui e dali e a ouvir barulho (seria generoso chamar-lhe música) em volumes capazes de causar danos auditivos, tudo isto ainda por cima em momentos do dia em que o corpo pede descanso e uma cama. Quando alguém conseguir explicar-me isto, passarei a ser frequentador assíduo de tudo quanto é discoteca. Deve ser influência do Pac-Man.

Na verdade, não tenho jeito nenhum para dançar. Mas gostava. E gostava de ter um par. Devo ser o único homem que não consegue encontrar uma mulher que queira dançar consigo.

O meu futuro não está na produção de eventos.

Manter as expectativas baixas é a melhor forma de não sair desapontado. Melhor ainda, aumenta a probabilidade de ser bem sucedido e exceder as expectativas. Sem expectativas de todo, então, não há desilusão possível. Saber que ninguém se interessa pelo que eu tenho para dizer deixa-me à vontade para escrever sem medo e com palavras difíceis. Se tivesse de agradar às lilianas desta vida, lá teria de dosear a informação com frases curtas e parágrafos duma linha.

A palavra «badalhoco» é das melhores palavras que conheço. Se repararmos com atenção, esta é daquelas palavras que vale mais que mil imagens, muito fruto do seu significado fonético, mas também pela carga semântica. Quando digo «badalhoco», não consigo imaginar outra coisa que não algo profundamente… badalhoco! Sinónimos há, mas nenhum com a mesma emoção que «badalhoco»… «Sujo» é demasiado limpo. Se a parede em frente a mim estiver suja, provavelmente terá a tinta desbotada, uma ou outra marca eventual duma pancada que tenha levado, talvez até uma pequena teia de aranha. Mas se estiver badalhoca, não será muito difícil imaginar restos de excrementos lá colados, ninhos de moscas varejeiras e todo o tipo de sujidade. «Porco», obviamente, divide as atenções com o animal, pelo que não se compara também a «badalhoco». Aliás, há porcos mais limpos que certos badalhocos que por aí andam.

Portanto, se um conselho posso dar, é que se use bem a palavra «badalhoco», porque poucas palavras conheço que exprimam tão bem o seu significado como esta.

«Deveras» também é uma palavra muito interessante. Devia haver uma lei que obrigasse toda a gente a usá-la pelo menos uma vez por dia. Uma outra boa palavra é «broeiro». As pessoas com o nariz grande deviam chamar-se «elefones». Anos depois, percebi que, para a Sandra, «amarfanhar» é «arrefanhar». Adoro o adjectivo «ignóbil». «Desassossego» tem esses a mais. Mas há toda uma classe em escrever qualquer coisa com dois esses, que não há em usar dois erres. Um circunflexo no sítio certo também tem sempre o seu estilo.

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