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Olho Clínico

Os médicos e a privacidade

Por Sara Teotónio Dinis

No Ano Comum, fiz estágio opcional em Pedopsiquiatria. Estive principalmente a acompanhar as consultas de um médico que vive a sessenta quilómetros do local onde trabalha. A mulher trabalha na mesma cidade que ele, pelo que a rotina deste casal, já com um filhote que deve ter agora os seus dois aninhos, é acordar às seis da manhã, preparar-se para sair para o trabalho, levantar a criança pouco antes das sete, vesti-la e dar-lhe de comer, e metê-la no carro para uma hora de viagem; levar a criança à creche, entrar ao trabalho, e completar a jornada; ir buscar a criança à creche, e fazer mais uma hora de viagem até casa. Ele explicou-me por que faz isto:

— Imagina o que é ires ao supermercado e cruzares-te com doentes teus, ires dar um passeio e virem rapazes e raparigas dizer-te «olá, senhor doutor» e tu olhares para eles e reconheceres crianças com problemas familiares, ou com histórias de abuso de drogas… Ficam a saber quem é a tua família, onde moras, onde costumas ir… Eu prefiro este sacrifício de ir e vir todos os dias, para poder ter a minha paz e tranquilidade anónimas.

— Mesmo se isso significar perder horas de sono? Mesmo tendo de arrancar o seu filhote da cama duas horas mais cedo todas as manhãs?

— Custa… Custa muito. Tens razão. E perdemos muito tempo a conduzir, quando podíamos estar a usar esse tempo para brincar com ele, ler-lhe histórias… Mas ainda assim, prefiro salvaguardar a minha privacidade.

Vim trabalhar para um concelho da região Centro. Dado que, durante os quatro anos mínimos de duração da minha especialidade, eu vou passar metade do tempo em estágios hospitalares na cidade mais próxima e a outra metade na sede de concelho, e a distância que as separa é de 25 quilómetros, eu tive de optar entre viver num lugar ou noutro. Na cidade, arrendar um local minimamente habitável e já mobilado nunca fica em menos de quatrocentos euros. No concelho, as rendas descem para metade. Dado que alturas vai haver em que, ficando num ponto ou noutro a estagiar, teremos que nos deslocar de carro diariamente, o preço da renda pesa bastante na decisão final, desde que se garantam as tais condições mínimas de habitabilidade, de preferência já com o apartamento mobilado.

Quando uma das médicas perguntou onde estávamos a pensar arrendar casa e nós respondemos «aqui no concelho», abriu-se-lhe uma boca de escândalo:

— Vocês querem vir para aqui? Não façam isso…

— Porquê?

— É uma invasão de privacidade… Toda a gente vai saber quem vocês são, o que fazem, a que horas… Vão-vos bater à porta… Não façam isso, a sério. Se não escolheram, não se ponham a decidir já! Pensem muito bem nisso!

A minha orientadora mora na cidade e disse-me o mesmo:

— Só de pensar na possibilidade de viver aqui, dava-me arrepios. Nem pensar. Mas eu também tive a facilidade de já ter casa na cidade… E não me faz confusão nenhuma ter de fazer a viagem de ida e volta todos os dias.

Pelos vistos, a fobia é geral e só não deve fugir à lista de pacientes quem já vive numa cidade e acaba por lá ficar a trabalhar. Só me lembro dum exemplo contrário — o meu último tutor do Ano Comum, o Dr. M., não liga a nada disso — vive na mesma vila onde trabalha. Não notei que tivesse problemas com o facto dos doentes saberem onde ele vive, muito pelo contrário — mandou-os a todos ir deixar as prendas lá a casa por alturas do Natal. E respeito por parte dos seus utentes foi coisa que nunca lhe faltou — porque ele também se sabia impor, como é óbvio (isto do respeito dá muito trabalhinho).

Cada qual sabe de si — é um facto. Contudo, não consigo perceber a fobia de viver na mesma terra dos doentes… e talvez nunca vá perceber, porque cresci numa aldeia onde toda a gente se conhece e toda a gente da minha rua sabe o que faço na vida desde que nasci.

E não deixo de me questionar… «Quem não deve não teme». Será que esta fobia é mais uma das manias dos médicos, e acontece porque não querem «perder tempo» e «aturar as pessoas» fora do horário de expediente? Ou será porque têm medo que a interpretação que os doentes fazem da vida pessoal do seu médico coloque em causa a sua autoridade e o seu profissionalismo?

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