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O Bar dos Gémeos

Por Ana Raimundo Santos

Há alguns dias, Portugal foi fustigado pela tempestade tropical Hércules, que, ao longo de toda a costa, deixou um rasto de caos e destruição. Entre primeiras páginas de imprensa escrita, notícias de abertura de noticiários de horário nobre e não só, múltiplos vídeos que inundaram as redes sociais, o Hércules foi tema de conversa durante muitos dias.

Para mim, para além da conversa normal sobre os estragos, a estupidez natural dos que, perante a fúria do mar, não souberam ter-lhe o devido respeito, e o tempo em si, o Hércules foi sinónimo de tristeza, porque provocou estragos profundos na «minha» esplanada — o Bar dos Gémeos.

Ali mesmo em frente à Praia da Mó, entre a de Carcavelos e o Forte de São Julião da Barra, a esplanada dos Gémeos tem sido, ao longo dos anos, ponto de paragem quase obrigatório antes ou depois da praia, para beber algo fresco antes de ir para casa, ou para reunir os amigos antes de nos dirigirmos para o areal. À noite, quer de Verão, quer de Inverno, os Gémeos sempre foram, igualmente, um local de encontro e partilha, ou apenas um refúgio para ler um bom livro, ouvir uma boa música (que lá é sempre excelente), pensar, simplesmente, na vida. Aquela esplanada, aquele lugar, são parte de mim, da minha história, de quem sou, e foi com uma enorme tristeza que vi o estado em que o Hércules o deixou.

Resta-me a esperança de que os Gémeos sejam recuperados o mais depressa possível, de preferência antes do tempo frio acabar, porque têm o melhor chocolate quente do mundo, e Inverno sem aquela maravilha de comer/beber e chorar por mais não é a mesma coisa. Comer? Perguntar-se-ão os que não sabem do que estou a falar. Sim, comer. O chocolate quente dos Gémeos tem uma «versão» espessa que se come com colher, porque é tão espesso que mais parece uma mousse de chocolate quente, capaz de confortar o estômago e o corpo, e aquecer a alma e o coração.

E no Verão? O que tem esse bar de tão especial no tempo quente? No Verão, nos Gémeos bebe-se uma limonada deliciosa, ou uma imperial bem fresquinha, e comem-se os melhores amendoins com sal que já encontrei numa esplanada. A isto junta-se, o ano inteiro, a simpatia dos donos e dos empregados, que já nos conhecem, que nos tratam como se fôssemos da casa, e que já sabem que eu adoro os amendoins e perguntam sempre se quero que tragam mais.

Os Gémeos são uma referência na praia, e espero, do fundo do coração, que se reergam o mais depressa possível.

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