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Beleza interior

Por Gustavo Martins-Coelho

Muito se fala de beleza interior, e fulaninho ou sicraninha são bonitos por dentro, e o camandro, mas eu cá não entendo nada disso de beleza interior. Quer dizer, a não ser que uma pessoa tenha feito uma endoscopia, ou uma tomografia, ou outro exame qualquer para ver as tripas, como é que se sabe se é bonita por dentro?

Só que tais formas de avaliar a beleza interior são profundamente maçadoras. Andei quinze dias com uma espinha enfiada no gorgomilo. Foi ao almoço que tudo começou — curiosamente, no dia das bruxas — «eu non creo nas meigas, mais habelas hainas». Estava a comer um carapau e uma espinha ficou-se-me atravessada na garganta. Que dores!!! Água não ajudou. Pão também não. A médica do trabalho ainda menos. Fui ao otorrino, que me enfiou pela goela abaixo uns instrumentos com ar de terem pertencido ao Torquemada e não viu nada.

— Eu não vejo nada. É possível que a espinha já tenha seguido o seu caminho e a dor seja só da lesão da mucosa. Se amanhã de manhã continuares a sentir uma picada, volta cá e voltamos a espreitar.

No dia seguinte, continuava a sentir uma picada. Voltei lá, ele voltou a brincar de Torquemada e voltou a não ver nada.

— Se continuares a ter essa impressão, volta cá para a semana.

Não voltei. Andei por fora do hospital durante a semana seguinte e a dor começou a diminuir; parecia estar a sarar. Ao final dessa semana, era só uma ligeira impressãozeca, um pontinho de mal-estar a meio do pescoço, a descair para a direita.

Uma impressão pequena poderá ser uma impressinha?

Deixei-me andar mais uns dias. Passavam exactamente duas semanas sobre o dia das bruxas quando me chamaram. Já não me lembro do que me queriam. Mas lembro-me de que olhei para a direita, donde vinha a voz de quem me chamava, e uma dor trespassou-me a impressinha como uma agulha sem dedal. A essa hora, já não havia otorrino no hospital. Esperei pelo dia seguinte para voltar a importunar o colega, que me disse:

— Ao fim de duas semanas, não é normal ainda teres dores. Não sais daqui enquanto não descobrirmos a espinha, porque está claro que ela tem de ainda estar aí dentro!

Não saímos dali durante duas horas, duas anestesias locais e a promessa de me levar ao bloco operatório para uma anestesia geral se não se conseguisse identificar e retirar o corpo estranho (assim se chama uma espinha enfiada na garganta em linguagem médica) a bem — «a bem» significando um otorrino com uma tenaz enfiada no meu gorgomilo enquanto um colega me puxava a língua para fora da boca e eu me esvaía em reflexos do vómito [1], com a sensação de que a faringe era um tubo de plástico usado em canalizações domésticas.

Mas a espinha acabou por sair. Dois centímetros de osso de carapau, que estiveram agrafados na minha valécula [2] durante quinze dias! Foi um sentimento de vitória equivalente ao que o Wellington deve ter sentido em Waterloo.

Mas, se isto tudo já custou horrores, imagino uma endoscopia! E uma colonoscopia!? Sempre que penso nisso, pondero muito bem os prós e os contras de deixar o meu cancro do cólon lá ficar sossegado, se tiver a infelicidade de vir a ter um.

E o otorrino nem me disse se me achou bonito por dentro.

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