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Os anos da bazófia

Por Hugo Pinto de Abreu

Há algum tempo, disse en passant nesta coluna [1] que «só existe algo mais deprimente do que o clima social de um país em profunda crise económica: o clima social de um país em rápida expansão económica» [2]. É uma afirmação polémica, e até grave, pelo que talvez seja tempo de a explicar mais demoradamente.

Há muito tempo que me tornei um «profeta da desgraça», não por qualquer «iluminação» especial, nem sequer por ser um pessimista, mas talvez simplesmente porque vivi e recordo muito bem esses anos noventa portugueses, os anos da bazófia. E só podia acabar mal, era evidente que só podia acabar mal.

«Pai rico, filho nobre, neto pobre». Os ditados populares contêm muita sabedoria, e todos conhecemos alguns casos em que este adágio se aplica ou aplicou perfeitamente. Creio que este princípio pode ser generalizado, ou seja, pode representar evoluções de comportamento colectivo.

Por que será? Já lá iremos. Primeiro, a bazófia.

As taxas de juro baixas, os fundos comunitários, a estabilidade política de um Portugal que parecia ter entrado na vanguarda do clube europeu rico e civilizado produziram os efeitos que já todos conhecemos. Entre eles, um insuportável e nojento ambiente de bazófia e de vanglória (vã-glória) no qual se começou a competir em termos de filhos «doutores», de automóveis alemães topo de gama, de férias em Cancun ou em [inserir destino turístico nas Caraíbas ou destino Asiático de turismo sexual], ou, porque não quero exagerar, uma boa quinzena de dias no Algarve, o mínimo olímpico para todo o português «de sucesso» no tempo da bazófia. Ou ainda, por que não falar disso outra vez, nas ridículas festas de casamento multimilionárias que não apagam, bem pelo contrário, realçam, a falta de qualquer noção elementar de bom gosto em muitos dos casos.

Estou consciente de que o leitor que não esteja «no mesmo comprimento de onda» neste momento deve achar que eu sou a Isabel Jonet II. Pois que seja. O seu ponto era bem válido e foi convenientemente distorcido. Sim, até os hábitos alimentares! Na mais completa ignorância do que é nutricionalmente correcto, nem os hábitos alimentares foram poupados ao clima de bazófia.

Note bem, caro leitor, que, se falo nisto, não é numa perspectiva sádica de «eu avisei» ou «tiveram o que mereceram». É antes com o objectivo de identificar, se possível, algumas pistas psico-sociológicas que possam ajudar a compreender o que se passou e a, se possível, aprender alguma coisa com o sucedido.

Mas, embora por vezes um economista goste de se enganar a si mesmo e achar que percebe um pouco de tudo, a verdade é que não sou psicólogo nem sociólogo. Daí decorre a necessidade de procurar entender esta realidade com base no senso-comum e procurando utilizar uma hermenêutica do «pai rico, filho nobre, neto pobre» à nossa situação colectiva, a realizar no «Docendo Discimus» [1] daqui a quinze dias.

Nesse sentido, gostaria de que fosse uma publicação participativa. Viveram «os anos da bazófia»? Reconhecem-se no sentimento descrito? Que explicações oferecem para o fenómeno, se o reconhecerem? Como evitar que se repita, partindo do pressuposto — aliás questionável — de que se trata de um fenómeno indesejável?

0 comentários a “Os anos da bazófia”

Dando resposta ao teu desafio, abro as hostilidades citando uma expressão que ouvi recorrentemente à minha mãe nesses tempos: «o sucesso do BMW.» Acho que em quatro palavras se resume o espírito dos anos noventa a que aludes no teu texto.

A percepção que o cidadão português tem dos “anos da bazófia” assenta, de facto, no senso-comum. Porém, as causas são muitas e diversas. Enumerá-las pode tornar-se um trabalho útil, mas Hercúleo. Desafio ao autor a que o faça e que comece pelas raízes (antes do 25-Abril), pelas características antropológicas (culturais e biológicas) e sociológicas dos portugueses e continue através da frase feita “o exemplo vem de cima”. Talvez ajude para iniciar…

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