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Olho Clínico

Gestão

Por Sara Teotónio Dinis

Na semana passada, ouvi dizer:

— Eu acho que aos médicos falta uma cadeira na universidade sobre Gestão.

— Eu não acho nada! Nós temos de aprender a tratar doentes, é esse o nosso trabalho!

Pois é. Mas penso que, para fazermos isso bem feito, é preciso mais do que saber diagnosticar e prescrever.

No meu local de trabalho, cada consulta tem uma designação. Consulta programada, consulta de diabetes, consulta de hipertensão arterial, consulta de cessação tabágica, consulta de planeamento familiar, consulta de saúde materna, consulta de saúde infantil são consultas com objectivos diferentes e definidos e, consequentemente, duração diferente. Os tempos de consulta variam entre os vinte e os dez minutos, consoante as exigências específicas.

Uma consulta de dez minutos é muito, mesmo muito, curta. Portanto, se queremos ouvir as queixas do doente, interpretá-las, resumir os antecedentes pessoais, fazer o exame físico dirigido, pedir exames complementares de diagnóstico, prescrever o tratamento e esclarecer as dúvidas do utente, temos que saber gerir o pouco tempo de que dispomos. Se o médico quiser cumprir o horário de trabalho e, acima de tudo, não deixar os doentes muito tempo à espera, esta gestão do tempo é lei, e o relógio o seu melhor amigo.

Mas esta capacidade gestora também é relevante na escolha dos exames complementares de diagnóstico. O médico tem que considerar as hipóteses de diagnóstico mais prováveis dado o quadro clínico que se apresenta, e identificar os meios complementares de diagnóstico apropriados ao esclarecimento das suas suspeições. Seguidamente, tem de considerar quais desses meios estão disponíveis — deve considerar a localização do prestador para evitar a necessidade de o doente se deslocar ao local de realização dos exames, e deve perceber se o doente tem hipótese de se deslocar, caso não haja outra alternativa. Também é importante perceber se o doente os pode pagar. Em último lugar, o médico deve analisar o custo para o SNS dos exames que tenciona pedir — sem prejudicar o doente, claro; por isso esta análise vem em último, e muitas vezes nem se realiza.

A Gestão dá também o ar de sua graça na hora da prescrição. Da entidade clínica ao fármaco vai: a escolha do princípio activo mais adequado tendo em conta o biótipo, as alergias e outra medicação que o doente já faz; a consideração da capacidade do utente tomar correctamente aquele princípio específico; e o preço do medicamento.

No nosso currículo, faz-nos falta muita coisa. E bem que podíamos começar a aprender Gestão em vez de Matemática, e Comunicação em vez de Física… Um dia, explorarei melhor estas questões académicas.

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