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Como procrastinar e, ainda assim, conseguir fazer as coisas

Por John Perry (The Chronicle of Higher Education, 23.II.1996) [a]

Tencionava escrever este ensaio há meses. Por que estou, finalmente, a fazê-lo? Será que é porque consegui, finalmente, encontrar algum tempo livre de compromissos? Errado. Tenho trabalhos para avaliar, uma proposta de investigação para rever, rascunhos de dissertações para ler.

Estou a trabalhar neste ensaio como forma de não realizar todas essas tarefas. Esta é a essência do que eu designo procrastinação estruturada, uma estratégia fantástica que descobri, para converter os procrastinadores em seres humanos eficazes, respeitados e admirados pelas tarefas que conseguem desempenhar e pela boa gestão que fazem do seu tempo.

Todos os procrastinadores adiam as coisas que têm para fazer. A procrastinação estruturada é a arte de usar este defeito em benefício próprio. A ideia chave é a de que a procrastinação não significa fazer absolutamente nada. Os procrastinadores raramente estão desocupados; antes realizam tarefas marginalmente úteis, tais como jardinagem, afiar lápis ou elaborar um diagrama de como irão reorganizar os seus ficheiros assim que arranjem tempo. Por que é que os procrastinadores fazem estas coisas? Porque levar a cabo estas tarefas é uma forma de não fazer algo mais importante.

Se tudo o que o procrastinador tivesse para fazer fosse afiar alguns lápis, nenhuma força na Terra seria capaz de fazê-lo deitar mãos à obra. Contudo, o procrastinador pode ser levado a realizar tarefas difíceis e importantes dentro do prazo, na medida em que tais tarefas consubstanciem uma maneira de não fazer outra mais importante.

Para utilizar com sucesso a procrastinação estruturada, o leitor deve começar por estabelecer uma hierarquia das tarefas que tem de realizar, por ordem de importância, da mais urgente para a menos importante. Ainda que as tarefas mais importantes constem do topo da lista, o leitor terá, certamente, tarefas não despiciendas mais abaixo na lista. Executar essas tarefas torna-se uma forma de não executar as que se encontram mais acima na lista. Com este tipo adequado de estrutura de tarefas, o leitor poderá tornar-se um cidadão útil. De facto, o procrastinador pode até adquirir, como eu, a reputação de conseguir altos níveis de produtividade.

A situação mais perfeita para a procrastinação estruturada que já encontrei ocorreu quando a minha mulher e eu trabalhámos como professores residentes [1] na Soto House, uma residência universitária da Universidade de Stanford. À noite, em face dos trabalhos para avaliar, das aulas para preparar e do trabalho burocrático para fazer, eu costumava sair do nosso chalé junto ao dormitório para ir à sala de estar jogar ténis de mesa com os estudantes ou conversar com eles nos seus quartos — ou simplesmente sentar-me na sala de estar e ler o jornal. Foi assim que ganhei a reputação de ser um excelente professor residente, um dos raros professores no campus que passava tempo com os estudantes e os conhecia realmente. Que história: jogar ténis de mesa como forma de evitar fazer coisas mais importantes e ficar conhecido como o Mr. Chips [2]!

Os procrastinadores seguem geralmente o caminho errado. Tentam minimizar os seus compromissos, assumindo que, se tiverem apenas uma mão-cheia de coisas para fazer, deixarão de procrastinar e realizá-las-ão de facto. Mas esta abordagem ignora a natureza básica do procrastinador e destrói a sua fonte de motivação mais importante. As poucas tarefas na sua lista serão, por definição, as mais importantes. E a única forma de evitar fazê-las será não fazer nada. Este é o método para se ficar parado, não para ser uma pessoa eficaz.

Neste momento, o leitor deve estar a questionar-se:

— Então e as tarefas importantes do topo da lista?

Efectivamente, estas tarefas podem ser um potencial problema.

O segundo passo na arte da procrastinação estruturada é saber seleccionar o tipo certo de projectos para o topo da lista. Os projectos ideais têm duas características — parecem ter prazos bem definidos (embora, na realidade, não tenham) e parecem extremamente importantes (embora, na realidade, não o sejam). Felizmente, na vida abundam exemplos de tais tarefas. Nas universidades, a vasta maioria das tarefas cabe nestas duas categorias, e estou certo de que o mesmo é verdade na maioria das outras instituições.

Tome-se, como exemplo, o item no topo da minha lista neste momento — terminar um ensaio para uma revista sobre filosofia da linguagem. Era suposto estar pronto há onze meses atrás. Entretanto, consegui realizar um número enorme de coisas importantes como forma de não trabalhar nesse texto. Há alguns meses, consumido pela culpa, escrevi uma carta ao editor para lhe pedir desculpa por estar tão atrasado e expressando as minhas boas intenções de me dedicar ao trabalho. Escrever a carta foi, claro está, uma forma de não trabalhar no artigo propriamente dito. Ora, vim a saber que não estava, de facto, muito mais atrasado do que os restantes autores. E quão importante é este artigo, de qualquer forma? Não tão importante que impossibilite que, nalgum ponto do futuro, surja alguma tarefa que eu considere mais importante. Então, chegará a vez de trabalhar no artigo.

Vou agora descrever como lidei com uma situação semelhante no Verão passado. O prazo para enviar a lista de bibliografia recomendada para um curso com início marcado para o Outono tinha terminado no início de Junho. Em Julho, era fácil considerar esta uma tarefa importante com um prazo apertado (para os procrastinadores, os prazos começam a ser apertados uma ou duas semanas depois de terem terminado). Por essa altura, comecei a receber lembretes quase diários da secretária do departamento; os estudantes iam-me perguntando pela bibliografia; e o formulário por preencher estava bem no meio da minha secretária há semanas. Esta tarefa estava perto do topo da minha lista; preocupava-me — e motivava-me a fazer outras coisas úteis, mas superficialmente menos importantes. Eu sabia que a biblioteca já estava bastante ocupada com os formulários enviados pelos não procrastinadores. Sabia também que poderia enviar o meu a meio do Verão e não haveria problema. Ao fim e ao cabo, a bibliografia de que eu necessitava consistia em livros populares de editores eficientes. Entretanto, aceitei uma nova tarefa, aparentemente mais importante, no início de Agosto, e a minha psique finalmente achou por bem preencher o formulário como forma de não executar esta nova tarefa.

Neste ponto, o leitor mais atento poderá sentir que a procrastinação estruturada requer uma certa ilusão do próprio, dado que o indivíduo está constantemente a perpetrar um esquema de pirâmide sobre si mesmo. Exactamente! O sujeito tem de saber reconhecer e dedicar-se a tarefas de importância inflacionada e prazos irreais, enquanto se convence de que são realmente importantes e urgentes. Deste modo, abre caminho à realização de tarefas aparentemente menos urgentes, mais rapidamente atingíveis. E virtualmente todos os procrastinadores têm também excelentes capacidades de auto-ilusão — pelo que o que haverá de mais nobre do que usar um defeito do carácter para compensar os efeitos nefastos do outro?


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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