Categorias
Olho Clínico

Tantos que somos…

Por Sara Teotónio Dinis

Volta o problema de números [1]… Aí vem ele de novo — o malandro adopta sempre um disfarce diferente. Vem mascarado de média, de Harrison, de nota mínima, de número de vagas… Depois cansa-se e transforma-se num salário que desilude, ou em duzentas horas extraordinárias não pagas.

Têm o dom de dividir toda uma classe, e de fazer descer à estupidez pessoas de cultura vasta e literatura difícil. Os ataques sucedem-se. Vão-se aglomerando lentamente, um de cada vez, a testar a tolerância e complacência. A questão dos números estica sempre [2], e estica tudo — o seu limite já não existe, e o dos outros, esse, vai tratar de o descobrir com o seu avanço.

E nós? Vamos andando, a passar de ano na faculdade, a estudar aquele tratado gigantesco, a aproveitar pouco o sétimo ano, a aprender a arte escolhida no oitavo, a dar consultas em contra-relógio, a fazer quilómetros nas enfermarias, a procurar camas e cadeiras de rodas nas urgências.

Vamos tentando passar ao lado das más notícias, para não perder o pouco ânimo que resta. E exercitando a discussão do trivial ao almoço, já que estamos na pausa nobre dos vinte minutos, e não nos queremos enervar antes das consultas da tarde. Vamos assim ignorando os avanços dos números, para não sucumbir ansiosamente ao prelúdio da nossa sorte.

Ou então vamos comentando os revezes das nossas expectativas douradas através do teclado, sem pensar e com o sangue a ferver, ocultando até o próprio nome… Tão mais fácil!

(Surdos, cegos, mudos — das três maleitas de espírito, qual delas a pior?)

Tantos que somos… juntos na indignação, mas sós na discussão. Vamos fazer como toda a gente sempre fez — remediar, desenrascar, culpar o mais à mão —, ou vamos ter a coragem de discutir seriamente os nossos problemas, para deslindar as suas verdadeiras causas? Vamos continuar a mandar pedras uns aos outros, ou ter a paciência para nos ouvirmos? Vamos juntar as gerações todas à mesa, ou vamos continuar a remar em todas as direcções, quando estamos juntos dentro do mesmo barco, a tentar mantê-lo à superfície nas águas agitadas de um Portugal já quase sem identidade?

0 comentários a “Tantos que somos…”

Simples mesmo é fazer juizos atrás de uma tela, na segurança de uma identidade encriptada que se arroga como pública por se exibir num púlpito de alcance global mas ofuscado sob a cortina de um conjunto escasso de seguidores. PA

A propósito deste seu comentário, sugiro-lhe a leitura do penúltimo parágrafo do primeiro editorial da «Rua da Constituição». Poderá encontrá-lo no seguinte endereço: «http://ruadaconstituicao.wordpress.com/2012/08/08/sobre-a-rua-da-constituicao/»

Fico grato pela sua sugestão, que li com toda a atenção.
Pois também eu lhe deixo uma sugestão: http://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx, mais concretamente o artigo 37º.
Acrescento ainda que quando um autor não tem capacidade para refutar uma ideia que lhe é contrária, quando essa ideia é colocada sem violação dos seus direitos e sobretudo sem desrespeito pela sua pessoa, e recorre a meios intimidatórios de qualquer tipo para esse fim, deverá desde logo abster-se de expressar publicamente a sua opinião.
Com os melhores cumprimentos

Acho que quando não se gosta de algo, simplesmente se passa ao lado e não se lê, esse é um dos privilégios desta era da informação… Com um simples clique podemos estar a centenas de artigos de distancia de algo que não apreciamos. A outra opção é portanto, comentar de forma construtiva, essa está só ao alcance de alguns que se dão ao trabalho de algo mais que o mero criticismo barato “de bancada” que tem vindo a assolar a nossa realidade. Comentários, existem, críticas, essas são infindáveis, agora algo construtivo, como soluções, esses sim, são realmente difíceis e dão realmente trabalho.

A minha crítica de gratuita tem pouco. Aliás, tem um propósito muito bem definido, que julgo ser claro. Mas voltando ao seu comentário: se não gostou, porque não passou ao lado?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *