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Crónicas Altitude

A performance

Por Hélder Oliveira Coelho

É sempre de bom-tom entrar neste e naquele sarau, dar uma pancadinha nas costas, dizer:

— Como vai, xotôr!?

Fazer aquele sorriso social, o piscar de olho simpático, o abrir de braços majestoso, para o abraço fraterno e conveniente.

Enfim… sou um amante da hipocrisia! Em pequeno, sonhava ser actor, pisar grandes palcos e receber palmas no final. Mas para quê? Se no dia-a-dia temos tudo isso e muito mais! Entrar nos salões e, por entre os afagos e carinhos, saber que se cospe fel e destila veneno. Não se suportam, não amam, nem se adoram. Escrevem horrores por este e aquele blogue. Fazem batalhas palacianas e esmiúçam pequenos grandes podres que todos sabem, mas por compadrio ninguém comenta de outro modo que não em surdina.

Eis que tem início o primeiro acto. Chegam as eleições e a malta quer ter um papel na peça, um lugar para si, ou para a esposa, o sobrinho ou o filho mais velho. Decora-se o texto e vai-se à audição. A palavra mágica é:

— Como está, camarada, não o via desde o último congresso do partido.

Consegui o papel por mérito! É certo que fomos camaradas do partido, mas isso é intriga das más-línguas. É o que se diz no dia seguinte.

Vem o segundo acto! Percebem que o tacho, perdão, o papel pode não ser para sempre. O teatro ou a companhia estão em crise. Aí, tudo muda: corre-se para encontrar nova audição. Assim haja vagas na comissão de festas da moda que escolhe os nomes para o próximo acto.

Gosto de andar pelos palcos como figurante. Ver in loco a sofreguidão com que todos se consomem pelo papel principal.

Lidar com a mesquinhez da malta é sofrível. Ver como todos se vendem ou se compram, sem moral ou honra. Perceber como os valores de ontem podem ser postos no prego para tirar lucros amanhã, ou apenas para não ter chatices… vá-se lá saber o futuro!

Quem diz o que sente, ou é louco, ou está ao serviço de interesses maiores. Mas levantar a hipótese de que esteja apenas ao serviço da honra, isso nunca!

Podemos dar nomes aos personagens: ministro, deputado, vereador, presidente de câmara, governador, director deste e daquele serviço público… Lambe-botas no geral e corruptos em particular! Enfim… uma peça de sucesso! Sem futuro, mas com sucesso!

Mas vamos dizer isto baixinho… porque, mais dia, menos dia, somos silenciados ou vítimas de vendetta saloia.

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