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Vida entre as cinzas

Por Hugo Pinto de Abreu

Um dos aspectos mais nefastos e preocupantes da actual crise é perceber em que medida afectou, afecta e afectará a psicologia e o desenvolvimento das novas gerações. Em primeiro lugar, há os que nem sequer chegam a nascer ou a ser gerados — com a actual taxa de fertilidade, é difícil que haja um futuro para Portugal enquanto nação portuguesa —, embora isso provavelmente não se deva à crise em si. Mas e os que nascem e crescem neste ambiente?

Há fenómenos documentados de fome entre as crianças portuguesas [1]. Quais as consequências no rendimento escolar e, mais importante ainda, quais as marcas que esta situação lhes irá deixar? Consigo ouvir as vozes dos «Há portugueses que vivem presos ao passado», «Portugal não pode voltar a viver acima das suas possibilidades», retorquirem que, outrora, já houve fome e situações difíceis. Temos de deixar de ser lamechas, portanto.

É certo que, para várias camadas da sociedade portuguesa, incluindo em gerações que ainda vivem, a fome e a miséria foram uma realidade. Mas é isso que queremos? O pior do passado pode ser a nossa bitola?

Mas nem só de pão vive o homem. Tão ou mais pesada que a falta do alimento presente é a falta de esperança no futuro. É certo que, recuando cinquenta, setenta e cinco ou cem anos, encontraríamos grande miséria. Mas não encontraríamos no Estado e nos seus responsáveis um discurso miserabilista.

Nem o Estado Novo, frequentemente acusado de miserabilismo, teve alguma vez este tipo de discurso, do: «graças a Deus que acabou o tempo de viver acima das nossas possibilidades». Apesar de uma política pragmática que não pretendeu dar todas as oportunidades a todos, sempre soube criar o élan de progresso colectivo e, nos anos sessenta e setenta, viveu o maior período de expansão económica portuguesa e o maior incremento de classe média de sempre.

Como verá uma criança ou um adolescente este tempo em que a fome, a incapacidade económica de prosseguir estudos e semelhantes «progressos», são implicitamente saudados? Finalmente a viver de acordo com as nossas possibilidades! Que futuro?

Conheço as objecções. São, à semelhança da geração anterior, que agora é — finalmente! — «desafiada» a sair da sua zona de conforto para emigrar, uma geração de mimados que só vivem em luxos de iPhones e festivais de Verão. Deveriam era ser empreendedores [2], criar o seu próprio negócio!

Apesar de tudo, resta em mim algum optimismo. Se temo os resultados desta vendetta geracional que se está a produzir no nosso País, acredito, por outro lado, que, dos cenários mais catastróficos, a vida consegue ressurgir, quase miraculosamente, entre as cinzas. As marcas estarão lá, mas talvez surja, forte e impetuosa, a determinação colectiva de não deixar repetir esta vingança sádica e cruel.

0 comentários a “Vida entre as cinzas”

Gostei da “pedrada” nesta letargia em que mergulhamos… Acrescento ainda que, não rara vezes, oiço portugueses a afirmar “o que é preciso é ter saúde… antigamente não tínhamos nada e éramos muito felizes, brincávamos divertíamo-nos…”
O que significa isto? Será falta de ambição ou um conformismo herdado?

Obrigado, Maria. Isso lembra-me que devo ainda responder ao seu comentário sobre os impostos.
A questão que colocou, é, sem dúvida, muito pertinente. Prefiro, por ora, não me alongar em análises sociológicas. Tudo o que pudesse partilhar neste momento partiria da minha experiência próxima com algumas pessoas que pensam assim, e penso ser um fórum demasiado público para o fazer de forma adequada. Acho que a minha opinião é perceptível nas entrelinhas.

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