Categorias
Crónicas Altitude

Descapitalização humana — a sociedade do «velhão»

Por Hélder Oliveira Coelho

Trago dois temas à antena. O primeiro, corolário dos últimos anos. O segundo, consequência directa do dia 8 de Março.

A forma como a sociedade ocidental tem vivido nas últimas décadas tem conduzido a uma realidade perturbadora. Somos uma sociedade velha. É um tema de que já falei [1], mas hoje abordo noutra perspectiva.

O sistema nacional de saúde, a cada dia de frio, vai ao rubro no caos. Entopem-se urgências, serviços de Medicina, o estado de sítio instala-se pelos hospitais de todo o país. As nossas camas hospitalares ficam pejadas de velhos. Não se pode dizer, mas é verdade. É assim que todos se referem a eles. Quando alguém com sessenta anos entra pelos serviços, dão-se alvíssaras que chegou um jovem! Esta é a realidade. É cruel.

Cruel no sentido em que muitos velhos só ali chegam porque não há forma de os cuidar fora. Em regra, são infecções respiratórias de trazer por casa, dessas que se tratam no conforto do lar [2]. Era preciso que existissem lares!!!

Não velhões! É isso que são os lugares onde depositam os velhos! São velhões! Pior, as famílias, se é que ainda se podem chamar famílias, acham que o lugar dos seus velhos é dentro de hospitais.

Nada de mais errado. O lugar dos meus entes queridos é em casa. Para o hospital, sujeitos aos riscos de infecções com bactérias resistentes, só iriam se a situação fosse grave o bastante. Faltam cuidados aos nossos idosos, falta-lhes amor, falta-lhes atenção.

Atenção, que não tem de vir do Estado! Numa sociedade em que o Estado tem obrigação de dar tudo, o que sobra para as famílias?! Sobram as heranças depois dos velhos morrerem nos velhões! Sabe Deus quantas vezes anos a fio sem ver o rosto de algum familiar… se é que se pode dizer que eles têm família.

O problema está no frio, mas no frio gélido em que transformámos as nossas relações familiares, não no frio medido por termómetros. Será um problema de todos?! Terá o Estado responsabilidades?! Creio que sim. É um problema de todos e o Estado também tem responsabilidades. Mas, sendo um problema de todos, cabe a cada um perceber até onde pode contribuir para ajudar a resolver.

Os hospitais não devem funcionar como velhões. Nenhuma casa devia funcionar como velhão! Eu gostava de ser idoso e não ser velho e descartável, como os trapos.

O segundo tema que trago é a Mulher! A necessidade de existir um dia dedicado à Mulher. Consigo encontrar argumentos válidos para o «sim» e para o «não». Mas não é disso que quero falar. Vou falar da Guarda e das suas gentes.

Falar de mulheres e da Guarda é começar desde logo por Carolina Beatriz Ângelo. Dela, não posso dizer nada, apenas curvar-me com toda a minha admiração.

Faço um exercício mais difícil e politicamente incorrecto, porque falarei das mulheres vivas e bem vivas que marcaram a Guarda. Nas últimas décadas, os jogos de poder na cidade foram jogados também no feminino. É certo que pelo município e oposição têm passado muitos homens, cuja qualidade não vou avaliar. Mas as verdadeiras figuras marcantes da política desta cidade foram três mulheres: Marília Raimundo, Maria do Carmo Borges e Ana Manso.

Como em tudo na vida, só o tempo permite avaliar de forma isenta e cartesiana o que trouxeram de bom e mau. Enquanto existir quem as ame ou quem as odeie, não se conseguirá avaliar a qualidade da obra.

Mas, numa sociedade onde nem sempre homens e mulheres são olhados da mesma forma, fico feliz por saber que, pelo menos, os jogos do poder nos séculos XX e XXI trouxeram à Guarda mulheres que são mães, profissionais de sucesso e deixaram obra para que possamos avaliar.

Dizia o Marquês de Sá da Bandeira:

— O meu País nada me deve.

A grandeza dos homens está em dar à pátria mais do que espera que a pátria lhe devolva. Afirmo com certeza que a pátria tem a dever muito a homens e a mulheres.

0 comentários a “Descapitalização humana — a sociedade do «velhão»”

Parabéns pelo realismo da opinião do primeiro tema que devia ser lido pelas famílias. Constatar factos tristes faz-me sempre perguntar porquê? Quais as causas? A resposta, ou respostas implicaria analisar e investigar, mas tal não cabe num artigo de opinião.
Quanto ao segundo tema, como sou mulher, apenas me cabe afirmar que deve ser lido pelos homens que, se calhar, têm muito a aprender com as mulheres.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *