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Olho Clínico

Você deveria deixar de…

Por Sara Teotónio Dinis

Na mesma semana em que fiz uma formação sobre Psicologia na Consulta, tive uma reunião/debate sobre o tema do Sobrediagnóstico. Os objectivos principais da formação eram ensinar a identificar o tipo de personalidade do doente, e guiá-lo no tratamento através da adopção de estratégias de comunicação e motivação [1] adaptadas ao seu tipo.

Estivemos, portanto, a (tentar) aprender a motivar um doente através do conhecimento dos seus traços de personalidade. Já no debate, discutiu-se o início da necessidade de começar a capacitar os doentes a decidir se querem ou não realizar determinado procedimento diagnóstico, ou receber determinado tratamento, após fornecimento de informações acerca dos riscos e benefícios, e através da entrega da responsabilidade da decisão — formalizada com o que foi na reunião mencionado como um «consentimento informado», mas a que eu mais correctamente chamaria «decisão devidamente informada». Foi muito vincada a ideia de que «o utente é um ser informado e consciente, logo deve ser responsabilizado pelas suas decisões».

Antigamente, o mundo não era tão perto. As estradas eram estreitas e em macadame, havia um carro em cada aldeia (se tanto!) que muitas vezes acudia às necessidades alheias ao dono, a televisão era uma caixa mágica que existia em casa do Ti Coiso e que esporádica e entusiasticamente proporcionava o ajuntamento de todos os habitantes a seus pés, os aviões eram coisas pequeninas que rasgavam o céu e ressoavam maus presságios, os navios serviam para levar os primogénitos para o Ultramar, e o telefone, esse, era um objecto místico e poderoso, que provavelmente só existia no posto dos CTT.

Antigamente, as pessoas conheciam o que viam com os próprios olhos, o que ouviam dizer da boca dos familiares e dos amigos, o que experimentavam com as próprias mãos, o que lavravam com o próprio suor, o que chegava à aldeia na carroça do azeiteiro e se conseguia comprar, e o que com muita sorte e grande sentido de oportunidade conseguiam visitar fora da aldeia (quando de lá saíam).

O povo era ignorante (também interessava que assim fosse — a ignorância é o sonho de qualquer líder, pois em terreno estéril pode semear o que quiser e lhe aprouver; a primeira ideia será sempre a base de todo o conhecimento — logo, dificilmente será questionada, principalmente se com ela vier a promessa de «uma vida melhor»). O povo não questionava. Se era para ser assim, era porque o Ministro entendia que assim seria o melhor a fazer — ele é que tinha estudado lá longe na Universidade. Ponto final. E no que à Medicina diz respeito, vigorava a abordagem paternalista — se o Senhor Doutor mandou, é porque é para fazer.

Hoje, o povo não é ignorante — pelo menos a maior parte. E ainda bem! Focando-me na Medicina… É bom que as pessoas saibam o que são as doenças [2], como se transmitem, como se contraem, como se previnem, como se tratam. Contudo — e generalizando, sabendo que felizmente uma parte não se enquadra -, apesar de hoje as pessoas saberem identificar os potenciais causadoresde problemas de saúde no futuro, elas continuam a perpetuar os mais variados comportamentos e hábitos «de risco»: fumar; ingerir bebidas alcoólicas para além das quantidades recomendadas; abusar dos alimentos salgados, gordurosos e doces; praticar o sedentarismo; ter relações sexuais desprotegidas (citando os principais).

Elas sabem o risco que correm, e não gostam de nos ouvir dizer para «não fazer»… Ficam irritadas e ansiosas, discutem connosco, recorrem aos argumentos que para elas fazem mais sentido — e que para nós não fazem sentido algum — para nos tentar fazer ver que a razão está do lado delas, dão mil e uma desculpas e motivos para fazerem o que fazem e, se insistirmos mesmo muito, no fim rematam com o argumento indiscutível do «direito»: «O corpo é meu, eu é que decido o que faço, e ninguém tem o direito de me dizer para não fazer o que quero». É neste ponto que o médico pensa: «Não vale a pena continuar a gastar o meu latim» e decide terminar ali aquele ponto de consulta.

Na formação da Psicologia da Consulta imperou o espírito de «luta pelo utente» que caracteriza a maioria dos médicos — porque nós sabemos que a razão está do nosso lado, e que um dia aquela conversa com o utente vai terminar de forma diferente (ou porque surgiu/aconteceu algo na sua vida que o motiva a querer deixar o hábito, ou porque soubemos encontrar-lhe a força motriz e deu-se o «clique» da mudança), nós nunca vamos (nem devemos) desistir de recordar esse assunto ao utente, nem nunca vamos desistir de o tentar convencer a «deixar de…».

No debate do Sobrediagnóstico imperou um espírito diferente e que vai ganhando adeptos, o da «responsabilização do doente» neste aspecto dos comportamentos de risco. De facto, se o futuro trouxer uma doença ao utente que se relaciona com o comportamento/hábito que foi mantendo ao longo da vida, ele é o «responsável» — responsável por ter decidido continuar o seu comportamento apesar de saber que este poderia vir a desencadear determinado processo patológico.

Em menos de uma semana conseguiram fazer-me pensar como há muito não pensava — com entusiasmo. Pensar sobre estas duas perspectivas relativas à prática clínica — que, à primeira vista, parecem antagónicas, mas que a meu ver terão muito potencial em uso conjugado — e voltar às consultas depois de ouvir falar de uma e doutra, é absolutamente extraordinário!

O desafio persiste, e os utentes continuam a fazer o que querem. O nosso dever é continuar a tentar, e eu vou sempre tentar. Apesar de tudo isto, eu questiono-me sempre:

— Quem és tu para os fazer querer mudar?

Respostas a esta questão poderei dá-las um dia, mas não é hoje, nem será tão cedo — são respostas que ainda não tenho, e poderei nunca ter.

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Ser empático é ver o mundo com os olhos do outro e não ver o nosso mundo refletido nos olhos dele.
Por aprendizagem significativa, entendo , aquilo que provoca profunda modificação no indivíduo. Ela é penetrante, e não se limita a um aumento de conhecimento, mas abrange todas as parcelas de sua existência.
“Não podemos mudar,não nos podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos.”
Descobri que sou mais eficaz quando me posso ouvir a mim mesmo,aceitando-me, e quando posso ser eu mesmo.”
Compreensão empática é a […] capacidade de se imergir no mundo subjetivo do outro e de participar na sua experiência, na extensão em que a comunicação verbal ou não verbal o permite. É a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro, de ver o mundo como ele o vê.
A “vida boa” é um processo, não um estado. É uma direção, não um destino.
O paradoxo curioso é que quando eu me aceito como eu sou, então eu mudo.
A experiência é para mim a autoridade suprema.
Carl Rogers

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