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Viver sozinho

Por Gustavo Martins-Coelho

Uma das vantagens de viver sozinho, além de poder andar nu em casa [1], é as coisas esperarem pelo nosso regresso no mesmo sítio — excepto se nos assaltarem a casa, mas tal não é um evento muito frequente.

Parecendo que não, ajuda bastante a poupar tempo e a manter a sanidade mental. Chegar a casa ao final do dia sem a certeza de que as coisas que lá deixámos de manhã ainda lá estarão, no mesmo sítio onde ficaram, até empresta um grama de emoção à vida no início, mas torna-se progressivamente mais aborrecido e incomodativo e, inexoravelmente, irritante.

Suponhamos, por hipótese, que recebemos uma peça de roupa — uma camiseta, por exemplo — em jeito de presente de aniversário e que a pousamos, dentro do saco, em cima da mesa, para, mais tarde, lhe retirarmos as etiquetas da loja e a guardarmos apropriadamente no armário. Mas isso calha, por azar, num período particularmente agitado, daquelas alturas em que andamos a correr atrás da vida, mas, por mais que corramos, ela está sempre um passo à nossa frente, e a camiseta vai ficando esquecida. Como está dentro do saco, já nem nos lembramos do conteúdo nas raras ocasiões em que passamos pela mesa em cima da qual o deixámos e acabamos por nos esquecer de que temos aquela peça de roupa. Vem o poltergeist com que coabitamos, tira a roupa do saco e mete-a num gavetão. Nunca mais usaremos aquela peça de roupa até ao dia em que procuremos um cachecol para sair à rua invernal. O melhor método para encontrar uma coisa perdida é procurar outra. Nunca falha. Mas, até precisarmos do cachecol, a camiseta ficará lá esquecida.

Ao poltergeist, há que juntar a sensação permanente de que a nossa vida íntima é vasculhada metodicamente. E nem pensar em reclamar, porque é tudo feito com a melhor das intenções e a ingratidão é um dos piores defeitos humanos. Só que o Inferno também está cheio de gente sobejamente bem intencionada.

Outra das vantagens é a oportunidade de viver a solidão. Desejo-a. Quero-a como a uma mãe. Entedia-me o mundo. Aborrece-me a felicidade de plástico. Enojam-me as lantejoulas de couro. Quero o sossego do isolamento. A paz do ensimesmamento. A minha solidão é o meu único direito inalienável. Está na minha constituição.

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