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Cícero e Homero

Por Hugo Pinto de Abreu

O Gustavo [1] mencionou recentemente, en passant, que defende que o Latim deveria ser uma língua obrigatória [2] do currículo escolar. Parece-me um tema muito pertinente, e escrevo para me associar a este desejo do Gustavo e para, de certo modo, o expandir para o Grego Clássico.

Se o caro leitor já teve a oportunidade de estar familiarizado com Eça de Queiroz ou Camilo Castelo-Branco, terá reparado na eloquência e riqueza do discurso, quer do discurso literário, quer do discurso político. E é difícil não contrastar essa riqueza com este tempo em que o discurso público se limita a analogias futebolísticas, e o discurso político se resume aos Credit Default Swaps.

Atenas, Roma e Jerusalém, em sentido figurado, são as grandes fundações da civilização ocidental. Tem-se falado numa crise moral. Poderia ser doutra forma? Para o homem do século XIX era evidente que a sociedade não poderia sobreviver sem se basear na filosofia ou na moral religiosa (ou em ambas). Hoje estamos perigosamente perto de não ter nem uma nem outra, porque hoje tudo está baseado no rating e no yield.

Uma influente corrente económica diz que o Estado deve agir em contra-ciclo. Estando nós entregues ao economês, não deveria o Estado agir culturalmente em contra-ciclo, e promover o estudo das nossas raízes? O Latim — para todos — e o Grego Clássico — pelo menos para alguns — são partes importantíssimas da nossa civilização; e podem ser (e são, frequentemente) a porta para um estudo aprofundado da literatura, da cultura e da mitologia clássicas.

Sim, seria urgente. Temos demasiadas pessoas a pensar que RIP advém de Rest in Peace [3]. Ah! e o Francês vai, infelizmente, pelo mesmo caminho do esquecimento. Também há demasiadas pessoas a pensar que fait-divers se lê «faith divers», ou a pronunciar Leroy Merlin como verdadeiros texanos.

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