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O Fundamentalista Científico

Se a verdade ofende, a nossa função é ofender

Por Satoshi Kanazawa [a, b]

O matemático alemão David Hilbert (1862-1943) é um dos meus heróis. A sua frase mais famosa, «wir müssen wissen, wir werden wissen» («nós temos de saber, nós saberemos»), parece captar ao mesmo tempo tanto a pureza como o optimismo de Hilbert. Nas três primeiras palavras, ele defende a busca do conhecimento como o objectivo mais importante da ciência; nas três seguintes, ele expressa sua crença de que o conhecimento completo é possível: não que nós poderemos ou talvez venhamos a saber, mas que nós vamos saber.

Embora alguns colegas meus discordem de mim, eu mantenho uma postura extremamente purista na ciência. Acredito que a procura do conhecimento pelo conhecimento é o único objectivo legítimo da ciência (refiro-me à ciência básica, por contraponto à ciência aplicada, tal como a medicina e a engenharia), e que a verdade é o seu único juiz. Nada mais deveria importar em ciência, além da busca objectiva, imparcial e sincera da verdade; e os cientistas devem persegui-la sem se importarem com as consequências.

De acordo com a minha posição purista, tudo o que os cientistas afirmam — quaisquer cientistas — só pode ser verdadeira ou falsa, ou algures no meio. Nenhum outro critério, além da verdade, deveria importar ou ser aplicado na avaliação de teorias ou conclusões científicas. Elas não podem ser «racistas», ou «machistas», ou «reaccionárias», ou «ofensivas», ou qualquer outro adjectivo. Mesmo que elas sejam assim rotuladas, não faz diferença. Apelidar as teorias científicas de «ofensivas» é como chamar-lhes «obesas»: simplesmente, não faz sentido. Muitas das minhas próprias teorias e conclusões científicas são profundamente ofensivas para mim, mas eu suspeito que elas são, pelo menos parcialmente, verdadeiras.

Assim que os cientistas começam a preocupar-se com algo que não a verdade e se questionam: «poderá esta conclusão ou descoberta ser potencialmente ofensiva para alguém?, entra em cena a auto-censura, e os cientistas são tentados a encobrir a verdade. E se uma conclusão científica é ofensiva e verdadeira? O que é que um cientista faz, então? Acredito que muitas verdades científicas sejam altamente ofensivas para a maioria de nós, mas também acredito que os cientistas devem procurá-las a qualquer custo.

Não é minha função, como cientista, «usar» o conhecimento científico de qualquer forma para melhorar a condição humana; esse é o trabalho dos políticos, dos decisores, dos médicos e doutros engenheiros sociais. O seu objectivo em ajudar as pessoas e em melhorar a sua vida é uma causa nobre e importante (embora não científica). Qualquer intervenção bem sucedida, no entanto, deve ser baseada na verdadeira compreensão da natureza. Se os engenheiros sociais não conhecem as verdadeiras causas do que estão a tentar criar ou eliminar, como podem esperar ter sucesso? Por se oporem e desprezarem totalmente certas teorias e conclusões científicas a priori, por razões ideológicas e políticas, porque acreditam que não podem e não devem ser verdade, eles arriscam-se a não alcançar o seu objectivo de ajudar as pessoas.

A liberdade académica deve ser acolhida, não porque seja um direito inalienável, concedido por Deus a todos os cientistas, mas porque é a melhor maneira de alcançar a verdade. A luz solar é o melhor desinfectante . É por isso que eu apoio fortemente o direito dos criacionistas, dos que negam o Holocausto, dos teóricos da conspiração, e de qualquer outra pessoa, a publicar as suas ideias. As falhas intrínsecas da sua lógica e dos dados apresentados só podem ser expostas se as suas ideias forem amplamente conhecidas e debatidas. Se as mantivermos escondidas, nunca poderemos eliminar a possibilidade de que até possam ser verdadeiras.

A única responsabilidade que os cientistas têm é para com a verdade, nada mais. Os cientistas não são responsáveis pelas consequências reais ou potenciais do conhecimento que criam. Tornar os cientistas responsáveis pelos usos e abusos, por outros, das suas descobertas é um método infalível de afastá-los da busca sincera da verdade, porquanto iria fazê-los parar e considerar outros critérios para além da verdade. Se a verdade ofende as pessoas, a nossa função, como cientistas, é ofendê-las. «Wir müssen wissen , wir werden wissen». Eu sou um fundamentalista científico.


Notas:

a: Esta é uma versão ligeiramente revista dum ensaio originalmente publicado no número de 15 de Dezembro de 2006 da Times Higher Education Supplement (n. do A.).

b: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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