Categorias
Estado de Sítio

Crónica pseudo-romântica ou teorizar é muito bonito, mas vale o que vale

Por Ana Raimundo Santos

De há uns tempos para cá, tenho acompanhado uma série norte-americana chamada «Betrayal» [1] e estou completamente vidrada. Não, não é uma série especialmente interessante pelo argumento. O que me fascina são os temas centrais abordados: traição; paixão; amor. A ordem pela qual os elenco não é aleatória, muito pelo contrário, ou não fosse o nome da dita série «traição».

Num dos últimos episódios que vi, uma das personagens pergunta a outra se ama a sua mulher, a mulher que anda a trair. Ele responde que sim, dizendo que estão juntos há vinte anos, que ela o conhece e interpreta sem ele precisar de dizer uma palavra, que ela conhece todos os sorrisos, percebe todas as piadas, que têm uma vida de partilhas e que sim, que a ama.

Este momento do episódio transportou-me a uma conversa que tive uns meses antes com o meu melhor amigo, sobre estar apaixonado. A certa altura, ele dizia-me que o número de vezes que já se tinha apaixonado de verdade por alguém e o número de vezes que se tinha interessado por alguém se encontravam na mesma razão que um copo de água para um oceano. Devo admitir que, naquele instante, não dei a devida importância àquelas palavras. Mas, depois daquele episódio, dei comigo a pensar nelas e a extrapolar para outras questões. Quantas vezes nos apaixonamos ao longo da vida? Quantas vezes passamos a barreira da paixão e entramos no universo do amor? Serão o amor e a paixão assim tão diferentes? E o que os distingue? Estas são interrogações que, de tempos a tempos, coloco a mim mesma e para as quais, confesso, tenho algum receio de encontrar respostas, se é que elas existem de forma permanente e absoluta e não apenas circunstancial e relativa.

Sempre acreditei que paixão e amor eram, são, sentimentos manifestamente diferentes, e vivi as minhas relações e a minha vida de acordo com essa crença. Estar apaixonada por alguém sempre foi para mim diferente de amar alguém. Hoje, com trinta anos, olho para a minha vida amorosa e posso afirmar que, apesar de me ter apaixonado diversas vezes, não tantas como achava que tinha, a verdade é que, até hoje, apenas amei uma.

A vida é mesmo assim, feita de sentimentos que sentimos e não conseguimos expressar com palavras, de palavras que deveriam refletir sentimentos verdadeiros, mas que são uma mera ficção, de atos e momentos cheios de significado e de outros tantos que nada significam.

Paixão e amor são sentimentos diferentes, e independentes, mas não indissociáveis. Se o amor é uma consequência direta da paixão, o mesmo não se pode dizer desta. Podemos apaixonar-nos por uma pessoa sem nunca vir a amá-la, no entanto não podemos amar uma pessoa, pelo menos de forma romântica, sem nunca termos estado apaixonados por ela. Porque o amor romântico, como qualquer outro amor, nasce com o tempo, com o conhecimento, com a convivência e com a partilha, mas requer algo mais, algo que só alguém apaixonado é capaz de sentir, algo que não se explica, que apenas se sente e que torna o objeto da nossa paixão em objeto do nosso amor.

Por isso mesmo, para mim, a traição surge como algo aberrante e ignóbil. Quem trai não ama, não sabe o que é amar, porque o amor é um sentimento altruísta e desinteressado: quem ama quer o bem do outro acima de tudo, e dá o que pode e o que, por vezes, não pode de si próprio para ver o outro feliz. Amar é dar sem cobrar. No entanto, isso é algo muito difícil de fazer, porque esperamos sempre que os outros sejam capazes de grandes manifestações de paixão ou amor por nós e, muitas vezes, tornamo-nos apenas recetores desses atos, como se fôssemos meros espectadores do filme da nossa vida. Qualquer ser humano adora ser conquistado, arrebatado, isso é inegável. Mas será que não estamos todos à espera do mesmo — que apareça alguém que nos conquiste, que queira dar a volta ao mundo por nós, que faço tudo o que está ao seu alcance e, já agora, até um bocadinho mais para nos fazer andar um palmo acima do chão?

Tenho para mim que estamos.

Mas isto somos eu e o meu mau feitio a falar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *