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Olho Clínico

Ordem e união

Por Sara Teotónio Dinis

Em comentário à notícia avançada pelo Público no dia 15 de Março e cujo título é «Prova que prevê “chumbo” de jovens médicos foi proposta pela Ordem e sindicatos» [1], o nosso colega Nuno Silva escreveu, na página do Facebook dos «Médicos Unidos» [2]:

O grande problema é que a Ordem somos nós e nós temos uma classe mais fragmentada do que a população da Crimeia. Representar a posição dos médicos é um número de malabarismo digno do «Palhaço de Ouro» no Festival de Monte Carlo. Há os médicos das 35 horas, os das 40 e os das 42 (entre outros); há os que são funcionários públicos e os que não são; há os que têm controlo de assiduidade e os que não têm; há os que têm horas extraordinárias obrigatórias e os que não têm; há internos, especialistas com salário de especialista e especialistas com salário de interno; há os especialistas que progrediram na carreira e no salário, os que queriam progredir mas não podem e os que progrediram sem progredir; há os que têm que operar como se não houvesse amanhã e os que operam a pensar no SIGIC de amanhã; há os médicos das UCSP, os das USF modelo A e os das USF modelo B; há os orientadores de formação com acréscimo do salário e os orientadores de formação por carolice; e, para qualquer um destes subgrupos, há os que precisam do SNS, os que defendem o SNS sem precisar dele, os que não se preocupam com o SNS porque não precisam dele e os que atacam o SNS porque precisam. Com esta divisão, é fácil reinar…

Na próxima quinta-feira, dia 27 de Março, irá ter lugar na Sede da Ordem dos Médicos em Coimbra uma Reunião Geral de Médicos, convocada pela Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos [3], pelo Sindicato Independente dos Médicos [4] e pelo Sindicato dos Médicos da Zona Centro [5]. Vão associar-se à reunião as Faculdades de Medicina de Coimbra [6] e da Covilhã [7], a Associação dos Médicos de Medicina Geral e Familiar [8], a Associação Portuguesa dos Médicos de Carreira Hospitalar [9], o Conselho Nacional do Médico Interno [10] da Ordem dos Médicos, a Associação Nacional de Estudantes de Medicina [11], e as Associações de Estudantes das Faculdades de Medicina de Coimbra e da Covilhã — Núcleo de Estudantes de Medicina/AAC [12] e MedUBI [13].

O objectivo da reunião é «informar os médicos, debater as suas posições e apontar uma estratégia de intervenção», face à proposta de alteração do Regime Jurídico do Internato Médico — que já referi e analisei aqui [14].

Vou estar presente na reunião. Vou levar comigo as minhas dúvidas e as minhas expectativas. Levarei comigo o meu caderno, a minha caneta, o conjunto de reflexões que fui construindo, a contraproposta do Gustavo [15] (companheiro assíduo na interrogação do que é imposto e na procura de respostas), e uma ambivalência de sentimentos que já há algum tempo se apoderou do meu espírito deveras despenteado.

Somos tantos [16]… Somos mesmo muitos, mas, como escreveu o colega Nuno Silva, somos todos muito diferentes, trabalhamos com condições e exigências muito díspares, e cada um quer cada qual da sua vida! Após tanta discussão no grupo «Médicos Unidos», pode ficar a impressão fugaz de que de «unidos» não temos nada, mas, de facto, a questão não é essa… A questão é a «diferença» de circunstâncias, que condiciona obviamente uma panóplia muito variada de «vontades» face a uma alteração que afecta todo o grupo… mas que não pode de todo justificar a passividade.

Por muito que os objectivos sejam diferentes, e que o trabalho e as provas de cada um não sejam as mesmas do vizinho, somos todos médicos. Todos somos Membros da Profissão Médica, e jurámos, entre outras coisas importantíssimas, que «A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação» e «Os meus Colegas serão meus irmãos.»

Como tal, temos o dever de nos fazer cumprir. E reuniões como a de dia 27 de Março de 2014 são momentos importantíssimos para nos darmos a esse trabalho — o de ter paciência para ouvir os colegas, o de ter respeito pelas opiniões diferentes da nossa, o de discutir os problemas que afectam cada um, o de juntar as várias gerações na mesma mesa, o de perceber as ansiedades e anseios comuns, e o de tentar delinear um plano de todos para todos.

Sós, continuaremos à mercê de um querer doentio, desmesurado e sem fim; continuaremos infelizes, desmotivados e defraudados.

A Ordem somos nós, e a União cresce de nós para connosco. É difícil, mas é o nosso dever.

Vamos lá!

0 comentários a “Ordem e união”

Sara,
novamente o nosso obrigado pelo teu contributo.
A raíz do problema é o célebre numeri clausi acima das capacidades formativas das faculdades. Como sabes, o Grupo de Trabalho para Revisão do Internato Médico apresentou em 2012, uma proposta de diminuição de aproximadamente um terço (1/3) das vagas, mas não houve qualquer alteração nesse sentido.
Em relação ao Proj DL 30.01.2014, não me parece necessário fazer uma descrição exaustiva das matérias em discussão, e tanto a SRNOM como a ANEM já emitiram comunicados mais detalhados, a primeira após a Reunião Geral de Médicos no Porto a 13/03 e a segunda após Assembleia Geral. Portanto, focando o essencial, as questões de fundo parecem ser as alterações ao internato médico e o acesso ao mesmo, sendo que estas matérias afectam em 1º lugar os estudantes, que vão fazer exame e escolher especialidade, e os internos, quer os de formação específica, quer os do ano comum. Logo, são estes os mais directamente atingidos e é destes que se espera a 1ª e mais veemente reacção. Não obstante, todos os Médicos devem estar unidos perante questões fulcrais na Medicina, e esta é uma delas.
Contudo, a história demonstra o seguinte: quando a ACSS realiza concursos “fechados” para recém especialistas que parecem violar o direito de liberdade e de igualdade de acesso aos empregos do sector público, existindo até um parecer da Provedoria de Justiça que conclui que “os despachos e decisões concursais em causa são inválidos”, o que fez a maioria dos não afectados?

Portanto, o ponto é este, temos que ser nós internos os primeiros a nos unirmos e tomarmos atitudes que defendam a qualidade da formação médica pós graduada. E são atitudes como o abaixo assinado realizado para o IM-2013A, que garantem a representatividade e legitimidade necessárias para levar estas questões a quem de direito.
A classe médica é, e sempre foi, um grupo heterogéneo de profissionais, em termos contratuais e outros, tanto em Portugal como noutros países. Mas, isso não nos desencoraja de tomarmos a iniciativa, de sensibilizarmos os nossos colegas internos e especialistas da gravidade deste Proj DL, de nos unirmos e tomarmos atitudes consensuais que defendam os direitos da Medicina, afirmando que não queremos especialistas de primeira e de segunda e que estamos dispostos a ir até ao fim pela salvaguarda da qualidade na formação médica pós graduada e pela qualidade da Medicina prestada aos doentes, que são PESSOAS, seres humanos, e não estatísticas nos relatórios anuais da ACSS.
Pelo que me foi dito por amigo comum, existem exemplos europeus de instituições que, reunindo as entidades competentes, elaboram e apresentam uma lista das necessidades médicas por especialidade e por local geográfico, por um período de x anos. Este modelo talvez tivesse utilidade em Portugal.
A “spark” começa em cada um de Nós.
Atenciosamente,
Miguel

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