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Do valor económico das coisas

Por Hugo Pinto de Abreu

A propósito dos medicamentos genéricos [1], surgiu nesta Rua a menção ao «preço justo» [2], ocasião para o Gustavo [3] me lançar um dos seus desafios: tentar analisar, com o leitor, se haverá tal coisa como «o» ou «um» preço justo. Eu, caro leitor, aceitei, mas, para lá chegarmos, teremos de fazer uma escala prévia: de facto, não poderíamos explicar cabalmente o preço justo, sem explicar primeiro o que é o preço.

Porventura o leitor se zangue comigo: então não é óbvio o que é o preço?

Ora, saber o preço da banana da Madeira não é difícil. Mas entender o que é o preço, como se forma, por vezes até para que serve, são desafios a não subestimar. Dar-lhe-ei dois exemplos para tentar convencê-lo.

É triste quando alguém se forma em Economia ou Gestão e, um dia, se depara com uma pergunta à qual não encontra resposta cabal:

— Por que é que o Estado não imprime dinheiro, o distribui a toda a gente e acaba com a pobreza?

É, naturalmente, uma pergunta legítima de quem não tem formação na área. Todavia, a questão revela algo que não é compreensível para alguém que estudou a ciência económica: o não compreender o propósito dos preços e do dinheiro. A resposta é, naturalmente:

— Porque, se o Estado distribuísse moeda feita a partir do nada sem restrições, essa moeda perderia todo o seu valor e não seria aceite como meio de troca (i.e. deixaria de ser moeda).

Mas, como se forma o preço? O que lhe determina o valor? O que é o valor?

Um dos meus maiores choques enquanto economista foi perceber que estas questões só foram respondidas de forma satisfatória na segunda metade do século XIX. Como é possível que seja necessário tanto tempo para apreender um fenómeno tão básico? Chocado, coloquei esta questão a um amigo, que me recordou que a Humanidade também demorou muito a descobrir a roda [4] e houve civilizações (por exemplo, na América pré-Colombiana) que nunca chegaram a aplicá-la ao transporte.

Embora houvesse intuições bastante certeiras (inclusive de Aristóteles) sobre a natureza do valor e da formação de preços, só a chamada Revolução Marginalista [5] deu a explicação que resolveu o chamado «paradoxo da água e dos diamantes», paradoxo que coloca em causa as explicações comuns do valor até então.

De facto, antes da Revolução Marginalista, o valor era visto como decorrendo do custo dos seus factores de produção, ou então decorrendo da utilidade do respectivo bem. Assim, segundo a teoria dos custos dos factores de produção, um sumo de laranja natural — assumindo que a água custa menos do que o sumo — custará sempre mais do que uma bebida que seja uma mistura de água e sumo natural; e, segundo a teoria da utilidade, um móvel de madeira de elevada qualidade terá necessariamente mais valor que um móvel de madeira de fraca qualidade, por melhor satisfazer as necessidades humanas.

Mas não é assim? Não necessariamente, caro leitor. Por isso lhe dizia que valia a pena que o nosso voo fizesse uma escala nesta questão, antes de discutir o preço justo.

Quanto à primeira teoria, ela é evidentemente falsa: duas coisas podem ter os mesmos factores de produção e terem valor e preço muito diferentes. Por exemplo: bilhetes de avião (dependendo da antecedência com que são comprados), um café expresso (dependendo do prestígio do local onde é vendido), etc.

A teoria da utilidade parece mais convincente, mas é incapaz de resolver o chamado «paradoxo do valor». Usando o exemplo da formulação clássica, a teoria da utilidade por si só não consegue explicar o motivo dos diamantes serem mais caros do que a água, dado que a água é infinitamente mais útil ao ser humano.

O que determina, então, o valor de algo? Não é somente a utilidade, mas a utilidade marginal, isto é o valor de algo depende da utilidade da última unidade que se queira consumir. É um fenómeno intrinsecamente ligado à lei dos rendimentos marginais decrescentes: para mim, o primeiro pão que consuma a cada dia tem um valor imenso, o segundo tem um valor menor, e, hipoteticamente, o vigésimo pão não tem valor nenhum (talvez tenha até valor negativo; teria o incómodo de me livrar dele para não apodrecer).

Assim, o valor da água e dos diamantes depende da utilidade da unidade desse bem que queiramos consumir. Embora a água seja mais útil em abstracto, é possível que, para si, caro leitor, a água valha menos do que os diamantes, pois as suas necessidades de água estão — espero eu — bem satisfeitas. Mas, acredite, se estivesse sem mantimentos no meio do deserto, o valor alterar-se-ia radicalmente. Note ainda que não é uma questão de escassez objectiva, mas de escassez subjectiva, que interfere com a sua apreciação do valor da água que lhe estão a propor comprar. Se estiver num deserto, mas com provisões de água suficientes, a utilidade marginal da água é muito reduzida, e, por tanto, valorizará mais os seus «diamantes». O preço é a quantidade de «diamantes» — habitualmente, de dinheiro — que surgirá da amálgama de considerações de utilidade marginal que os consumidores façam sobre o valor da «água» — i.e. dos bens económicos.

CATESBY:

Rescue, my Lord of Norfolk, rescue, rescue!
The king enacts more wonders than a man,
Daring an opposite to every danger:
His horse is slain, and all on foot he fights,
Seeking for Richmond in the throat of death.
Rescue, fair lord, or else the day is lost!

KING RICHARD III:

A horse! a horse! my kingdom for a horse!

William Shakespeare, «Richard III» (1594)

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