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Olho Clínico

Ontem foi o Dia Mundial da Saúde

Por Sara Teotónio Dinis

A Organização Mundial de Saúde (OMS) deu a definição: «saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doenças» [1].

Esta definição, que permanece inalterada desde 1948, foi amplamente criticada. Primeiro, porque introduz a noção das várias saúdes — a do corpo, a da mente, e a que resulta da relação com o outro. Segundo, porque diz claramente que saúde não é só não estar doente. Terceiro, porque, depois disto tudo, ainda ousa dizer que é um estado de completo bem-estar. A crítica era incontornável, dado que a definição assenta na utopia de que o equilíbrio pleno entre o físico, o mental e o social é possível, e na utopia de que o ser humano pode um dia estar satisfeito na vida. Eu não critico — não faço uma leitura tão céptica. Consigo dizer que me sinto uma pessoa saudável, e conheço muitas outras pessoas saudáveis.

O que é o «bem-estar»? É «estar normal», ou é um «está-se bem»? É a ausência de coisas más, ou implica a presença de coisas boas? Só é saudável quem tem «tudo bem», ou também o pode ser quem «está bem com o que tem»?

Um conceito capaz de ajudar a perceber o que é este «bem-estar» patente na definição de saúde é a teoria de Maslow [2]. Esta é uma teoria da motivação centrada no conceito de auto-realização — ou, segundo o próprio, «o desenvolvimento máximo dos potenciais de cada ser humano». A teoria de Maslow assenta na sua conhecida pirâmide — cada ser humano tem de escalar uma hierarquia de necessidades para atingir a sua auto-realização.

A pirâmide é composta por cinco necessidades: as necessidades fisiológicas (compondo a base) constituem a sobrevivência do indivíduo e a preservação da espécie; as necessidades de segurança constituem a busca de protecção contra a ameaça ou privação, a fuga e o perigo; as necessidades sociais designam a aceitação pelo meio, o sentido de pertença e o de importância, e incluem as necessidades de afecto e amor; a necessidade de estima constitui a necessidade de aprovação social e de respeito, de consideração, de confiança perante o mundo, de independência e de autonomia; a necessidade de auto-realização (no vértice) constitui a necessidade de cada pessoa realizar o seu próprio potencial e de se desenvolver continuamente. Em resumo, na base da nossa auto-realização está uma construção assente na resposta a necessidades físicas, e cimentada pela satisfação de necessidades sociais.

A pirâmide não deve ser interpretada como «o caminho da felicidade». Contudo, a experiência dos psicólogos demonstrou que, quando o ciclo motivacional não se realiza, sobrevém a frustração do indivíduo, que pode vir a sofrer de nervosismo, insónia e outros distúrbios circulatórios ou digestivos e pode assumir certas atitudes, resultantes da insatisfação: comportamento ilógico, agressividade, falta de interesse pelas tarefas ou objectivos, resistência às modificações, pessimismo e insegurança.

A frustração é, assim, um exemplo de que a ausência de «bem-estar» mental se pode reflectir no «bem-estar» físico. E na sua própria génese pode estar a insatisfação de uma necessidade física, mental ou social. É natural que pareça confuso, porque, apesar de eu tentar encaixar cada coisa na sua gaveta, em nós está tudo entrosado.

O que podem as pessoas fazer para «construir saúde»? Para «ficar melhor»?

Outra questão interessante acerca da saúde é o possível conflito entre a saúde que a pessoa sente ter e a saúde que os outros acham que a pessoa tem, e aquele entre o bem-estar que a pessoa sente, e o bem-estar que os outros acham que a pessoa sente.

Se as visões forem iguais, poderá não haver problema — se a esposa achar que o marido está gordo e está a respirar pior por causa disso, terá mais sucesso ao tentar convencê-lo a marcar uma consulta se ele se sentir mais ofegante e reconhecer que, efectivamente, tem uns quilos a mais. Se um diabético não reconhecer a gravidade da diabetes e se sente bem como está, será difícil convencê-lo do benefício em se picar todos os dias para ver a glicemia, uma vez que picar um dedo todos os dias já dói qualquer coisa — gera-se um conflito. Só se gera mudança se houver consciência da sua necessidade, e isso vale para a saúde e para muito mais coisas.

Motivar para a saúde é um dos maiores desafios da minha prática — é algo que exige muito ouvido, técnica, tacto, diplomacia, assertividade e capacidade de negociação, porque de uma maneira muito geral as opções mais aprazíveis na vida são as mais fáceis e as menos saudáveis [3]. Apesar de tudo, tem de prevalecer o respeito pela liberdade do outro e a capacidade de entender as suas escolhas de vida, porque a necessidade de auto-realização de cada um é diferente e, assim, também serão as suas várias necessidades.

O início deste texto podia ser também o seu fim, porque este é o cerne da questão: a saúde não está limitada à matéria de que são feitos os corpos. É um conjunto de factores cujo equilíbrio se afigura muito delicado e cujo cuidado é consequentemente exigente e difícil. E a sua defesa e promoção depende, acima de tudo e de qualquer outro, da pessoa que a tem quanto baste ou que a começa a perder.

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