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Prioridades do quotidiano

Por Hélder Oliveira Coelho

Há dias, conversava com uma antiga professora, já reformada. Quando lhe perguntei se as editoras ainda lhe enviavam os manuais escolares, respondeu com alguma resignação, mas um olhar triste, que não. Todavia, acrescentou que o que lhe trazia tristeza era o facto de nem sequer lhe ser possível comprar o livro do professor. Uma vez professor, é-se sempre professor.

Cheguei a casa e pensei… também eu sou professor. Ganhei o meu primeiro salário como professor. Mas a minha formação de base é outra. Uma vez médico, sempre médico [1].

Quantas vezes dou comigo no metro, ou na rua, a dizer a um desconhecido:

– Faça antes desta ou daquela maneira, atente na sua saúde.

Ou até a corrigir crianças, ou a dar dicas a idosos. Efectivamente, o que somos, o que faz parte do nosso material genético, morre connosco. Reconheço nas minhas brincadeiras de meninice muito do que viria a ser o meu futuro enquanto homem.

Eis que me pergunto: e os que não brincam… como é da vida de quem, por qualquer razão, não pode brincar?!

As exigências do quotidiano absorvem cada minuto dos nossos dias. A correria é frenética. Nunca se pára. Os pequenos da escola para o treino de futebol, o ballet ou o judo, da música para a explicação, do jantar para o estudo, da novela para a cama. Os crescidos… do trabalho para o ginásio, as compras, as contas para pagar, ir buscar ou levar os pequenos a todo lado, a vida de casa e a exaustão de mais um dia de escravidão moderna.

O sol, a chuva, o vento, os dias vão passando, surge aquele cabelo branco por entre o vigor do dia-a-dia absorvente, o estresse, que serve de bode expiatório para tudo.

Provavelmente, também os nossos antepassados sofreriam dele, noutra escala. Os anseios de uma comunidade têm em si alguma transversalidade. Pelo menos, é nisso que eu acredito.

A necessidade de viver intensamente faz com que nos esqueçamos efectivamente de viver, de reconhecer o que é importante. O que se tem por adquirido nunca é uma necessidade premente. Quem vê como necessidade pôr os pés no chão e caminhar? Quem se dá conta do quão importante é poder lavar sozinho o próprio rosto?! Olhar para o céu cinzento e pensar… que dia tenebroso, só faz sentido se efectivamente eu puder ver. E se eu não visse?! Será que o cinzento do céu teria o mesmo peso na minha vida?! Que importância tem eu poder alimentar-me sozinho, ir à casa de banho sozinho? Ou poder abraçar os meus filhos, dar um beijo aos meus pais? Dizer a quem está a dormir junto a mim que a amo?! Mesmo com aquele ar rabugento matinal. Aquele casaco fora do sítio que me irrita todos os dias, ou a escova de dentes que nunca fica no lugar correcto?

A manteiga que acaba… eu não te disse que devias ter comprado isso ontem?! Já comecei mal o dia. Curiosamente, tenho algo para tomar ao pequeno-almoço. Será importante o que acompanha a torrada, para quem não sabe sequer o que é pão?

As nossas prioridades nem sempre são as devidas. O que está por adquirido deixa de ser uma prioridade, mesmo quando é tão fundamental para nós, nem lhe damos atenção! Dirão… mais um com a síndrome «Catarina Furtado», que apela ao sentimentalismo digno de horário nobre de TV.

Longe disso… mas, se recordar os tempos em que trabalhei no IPO… se olhar para todos os rostos de quem não pode brincar… de quem não sabe se acorda para ver o cinzento do céu, de quem não sabe a que vai saber a manteiga, de quem pode nunca mais abraçar, beijar, dizer que ama… de quem não se movimenta pelo próprio pé, ou de quem não se movimenta de todo… de quem vive heroicamente, na esperança de que amanhã esteja vivo… se recordar tudo isto, fico certo de que não sabemos que vivemos felizes, e o quão felizes somos por viver.

A crise faz de nós criaturas a mendigar esperança ao sabor da desgraça mediática. É bom que saibamos reconhecer o que é, de facto, a prioridade. Quando chegar a casa, não se esqueça de dizer a quem está ao seu lado o quanto o ama. Quando acordar, sorria, porque pode enfrentar mais um dia, seja lá qual for a cor do céu!

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