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Já não é

Por Gustavo Martins-Coelho

Tal como o Nabokov, «eu penso como um génio, escrevo como um distinto homem de letras e falo como um idiota.» A fala é aquela que estraga linhas que embalam corações em fonemas patéticos.

Dizem que o verbo é insuficiente; que há toda uma comunicação silenciosa, mais uma comunicação sonora, sem o verbo. Tenho o infortúnio de nunca ter aprendido a gramática agramatical. Sou aquele que ri nos funerais e chora quando vê uma comédia no cinema. Por isso, procuro despir a minha verborreia dos fatos cuja costura não entendo e refugio-me na escrita, a única forma pura do verbo. Escrevo incessantemente. Sou um macaco infinito. Mas mantenho uma certa promiscuidade entre o que escrevo e o que digo. Talvez porque o meu arsenal de temas de conversa é limitado [1].

Não vinha preparado para isto. Nós construimo-nos aos poucos, nem sempre pela ordem certa. Ou talvez nem haja, sequer, ordem. Mas não dei conta de termos derrubado os tijolos que já tínhamos cimentado e de termos destruído os caboucos. Olharmo-nos assim, como dois estranhos, é mais estranho do que a estranheza do olhar.

— É boa menina?

Em três palavras singelas e interrogativas pode viver um mundo vitoriano.

Saudades de que me limpasses os óculos! Saudades de te ouvir contar as histórias da casa grande, junto ao tanque, por entre ciprestes. Saudades de te ouvir falar dos achaques do avô republicano, de cada vez que a avó convidava as senhoras para o terço. Saudades desses teus tiques fascistas, mas profundamente democratas. Saudades de te ouvir dizer que somos todos uns idiotas, porque os outros não sabem falar línguas. Nesse tempo soalheiro, um galho era um ceptro.

A nossa relação até começou bem. Eu era uma criança e tu eras a minha chave para a emancipação. Acompanhaste-me longos anos, sem nunca exigir nada. Ajudaste-me a socializar. Juntos, construímos memórias. Fui-te acrescentando pedaços. Acreditei que serias para sempre e que um dia serias perfeita. Mas algo sucedeu, que nos mudou. Mais a mim, concedo. Mas dei-te várias chances de mudares comigo. Correram todas mal, cada vez pelo seu motivo. Esta foi a última. Um dia, desistimos.

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