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Iustum pretium — parte II

Por Hugo Pinto de Abreu

Se o valor económico não advém de factores intrínsecos ou objectivos, mas sim da interacção de todas as utilidades marginais — subjectivas — num mercado [1], então, dada a variabilidade inerente a esta dinâmica, dificilmente poderá haver um preço constante, diríamos, uma referência de origem natural à volta da qual o preço de mercado devesse oscilar, ou seja, dificilmente poderá haver um preço justo [2].

Perante isto, muitos defensores acérrimos do livre-mercado concluem que o preço justo não é mais do que uma quimera; ou ainda, dizem: o preço justo é… o preço de mercado de cada momento. Concluem: dado que, se existe algum preço justo, ele é o preço de mercado, e visto que este varia constantemente, qualquer acção do Estado ao nível da regulação ou fixação de preços gera necessariamente preços «injustos».

E, contudo, há situações que chocam, e nas quais dificilmente poderíamos considerar que qualquer preço é justo. Se uma tia nossa — chamemos-lhe Dona Leontina — pagasse vinte mil euros por mês à simpática empregada que lhe amacia as agonias da velhice (e a conta bancária), rapidamente concluiríamos que o salário da excelente empregada é injusto, e de imediato procuraríamos solicitar o reconhecimento da incapacidade da querida Dona Leontina, a fim de preservar o seu património.

E quantas vezes não entramos num estabelecimento que não conhecemos e pedimos um café expresso sem sequer perguntar o preço? Se o preço oscilar entre, digamos, €0,45 e €3,00, talvez achemos mais barato ou mais caro. Todavia, se nos for apresentada uma conta de €50,00 por um café expresso, provavelmente pensaremos que alguém ensandeceu.

A nossa intuição, portanto, aponta-nos fortemente para a existência de preços que não hesitaríamos em apelidar de injustos. Esta será a chave para procurarmos encontrar algo a que possamos chamar de preço justo, o que faremos no próximo artigo.

0 comentários a “Iustum pretium — parte II”

[…] Se, por um lado, dificilmente o valor de um bem e serviço se pode manter rigorosamente constante durante muito tempo [1] e, portanto, pareça ganhar peso aquele argumento liberal de que qualquer preço imposto pelo Estado – sob pretexto de ser o preço justo – é necessariamente nocivo; por outro, é relativamente fácil encontrar exemplos de preços injustos [2]. […]

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