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Olho Clínico

A «bula» do tabaco

Por Sara Teotónio Dinis

i. O consumo de tabaco

O hábito tabágico atinge todas as regiões do mundo e todos os estratos sociais.

No estudo Eurobarómetro de 2012, nos Países da União Europeia:

  • 28% dos inquiridos com 15 ou mais anos referiram fumar (32% dos homens e 24% das mulheres);
  • 49% dos desempregados referiu fumar;
  • 21% dos inquiridos referiu ser ex-fumador.

Neste mesmo estudo, Portugal apresentou os seguintes resultados:

  • 23% dos inquiridos referiram fumar;
  • Consumo médio de 14,4 cigarros/dia (valor próximo da média europeia).

O último Inquérito Nacional de Saúde, realizado em 2008, revelou:

  • 20,9% dos inquiridos são fumadores diários ou ocasionais (30,9% dos homens e 11,8% das mulheres);
  • 16,1% são ex-fumadores.

ii. Efeitos nocivos do tabaco — para o corpo humano

O tabaco é rico em nicotina, substância psicoactiva geradora de dependência. Contém substâncias cancerígenas, tóxicas e mutagénicas.

Fumar afecta todo o organismo humano. Não existe um limiar seguro de exposição para o ser humano. A exposição ao fumo ambiental do tabaco é também nociva para todos os que sejam obrigados a permanecer em locais fechados onde se fume.

Relação de algumas patologias com o tabagismo:

  • 87% dos casos de carcinomas do pulmão;
  • 50% dos casos de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC);
  • 21% das doenças coronárias;
  • 18% das doenças cérebro-vasculares;
  • 80% dos casos de carcinoma esofágico;
  • 93% dos casos de carcinoma da cavidade oral;
  • 82% dos carcinomas da laringe;
  • 50% dos carcinomas da bexiga e rim;
  • 14% das leucemias.

Além disso, o fumo do tabaco está relacionado com outras patologias:

  • A nível do aparelho respiratório superior: faringite, laringite crónica, disfonia; diminuição do olfacto, rinite, sinusite; hipoacusia e vertigens;
  • A nível do aparelho respiratório inferior: exacerbação de asma; infecções respiratórias; pneumonia bacteriana; pneumotórax espontâneo;
  • A nível da cavidade oral: alteração da pigmentação dos dentes; gengivite e periodontite; estomatite; alterações do paladar;
  • Outros: impotência e esterilidade; infertilidade; osteoporose; menopausa precoce; envelhecimento cutâneo.

Efeitos do tabagismo nas grávidas — aumento do risco de:

  • Frequência de defeitos congénitos (lábio leporino, fenda palatina, sindactilia, estrabismo, tetralogia de Fallot);
  • Hemorragias;
  • Abortos espontâneos;
  • Gravidez ectópica;
  • Hipoglicemias e anemia;
  • Placenta prévia e descolamento de placenta;
  • Parto prematuro;
  • Complicações durante o parto;
  • Recém-nascido de baixo peso;
  • Morte súbita no recém-nascido.

Efeitos do tabagismo passivo no lactente:

  • Atraso do desenvolvimento físico;
  • Morte súbita;
  • Cancros pediátricos (cerebral e hemáticos).

Efeitos do tabagismo passivo na criança:

  • Aumento de incidência de doenças respiratórias agudas (pneumonias e bronquites);
  • Indução e exacerbação de asma;
  • Infecções do ouvido médio.

iii. Efeitos nocivos do tabaco — para a carteira do corpo humano

Nº cigarros 1 mês 6 meses 1 ano
2 cig/dia 9€ 54€ 108€ / aparelhagem de som
5 cig/dia 22,5€ 135€ 270€ / máquina fotográfica
10 cig/dia 45€ 270€ 540€ / smartphone
15 cig/dia 67,5€ 405€ 810€ / férias no estrangeiro
20 cig/dia 90€ 540€ 1.080€ / computador
40 cig/dia 180€ 1.080€ 2.160€
60 cig/dia 270€ 1.620€ 3.240€

iv. Tabaco, morbilidade e mortalidade

No conjunto dos países europeus, o consumo de tabaco foi a segunda causa de carga da doença, a seguir à hipertensão.

O consumo de tabaco constitui a principal causa evitável de doença e de morte.

O tabaco contribui para seis das oito primeiras causas de morte a nível mundial.

Um em cada dois consumidores que fume regularmente ao longo da vida morrerá por uma doença associada ao tabaco, e perderá em média 10 anos de esperança de vida.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, morrem por ano, em todo o mundo, cerca de 5,4 milhões de pessoas fumadoras e ex-fumadoras.

Em Portugal, em 2005, morreram cerca de 12.600 pessoas por doenças decorrentes do consumo de tabaco (11,7% do total de mortes).

v. Fontes bibliográficas

  1. Comissão Europeia. Attitudes of Europeans towards tobacco: Report. Special Eurobarometer 385. Bruxelas: TNS Opinion & Social, 2012.
  2. Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, IP; Instituto Nacional de Estatística. Inquérito Nacional de Saúde 2005/2006. Dados Gerais. Lisboa: INSA, IP/INE, 2008.
  3. Direcção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Prevenção e Controlo do Tabagismo 2012–2016. — Lisboa: DGS, 2013. — 77 p.
  4. Organização Mundial da Saúde. Report on the Global Tobacco Epidemic. The MPOWER package. Genebra: OMS, 2008.
  5. Stergachis A, Scholes D, Daling JR, Weiss NS, Chu J. Maternal cigarette smoking and the risk of tubal pregnancy.
  6. Coste J, Job-Spira N, Fernandez H. Increased risk of ectopic pregnancy with maternal cigarette smoking. Am J Public Health 1991; 81: 199-201.
  7. US Department of Health and Human Services. The Health Consequences of Smoking. Nicotine Addiction. A report of the Surgeon General Rockville, Maryland: US Department of Health and Human Services, Public Health Service, Centers for Disease Control, Center for Health Promotion and Education, Office on Smoking and Health. 1988. DHHS Publication No (CDC) 88-8406.
  8. US Department of Health and Human Services. The health consequences of involuntary exposure to tobacco smoke: a report of the Surgeon General. Atlanta, GA. US Department of Health and Human Services, Centers for Disease Control and Prevention, Coordinating Center for Health Promotion, Office on Smoking and Health, 2006.

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