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Olho Clínico

Os lutos

Por Sara Teotónio Dinis

Quando a presença das coisas ou das pessoas que nos são queridas deixa de fazer parte dos nossos dias, estamos de luto.

Os lutos da morte devem ser os mais difíceis, porque a morte só nos deixa a esperança muito remota de um reencontro etéreo e imaterial, ao qual não se conhecem as formas nem os detalhes — do qual ninguém tem a certeza.

Os outros lutos deixam sempre espaço à palavra «talvez» e à esperança mais possível de que um dia tudo volte a ser como dantes. Mas também essa esperança morre… e, se não morrer por si, às vezes tem de se matar.

O luto é padrasto — obriga-nos a suportar as suas dores até ao fim, e a única forma de chegar ao seu fim mais rapidamente é estar disposto a sofrer essas dores de corpo e alma. Bem diziam os antigos que «o que arde cura».

Eventualmente, a dor termina. O seu prazo de validade não está determinado… demoraremos o tempo que for necessário. O importante é não saltar fases — a negação, a raiva, a negociação, a depressão e a aceitação são todas necessárias. Não se pode ficar preso à raiva, nem à negociação, nem à depressão, sob pena de hipotecarmos a vivência saudável do nosso presente e do nosso futuro.

Apesar de tudo o que nos for dito para nos tentar ajudar, só nós próprios temos a chave da resolução — para a descobrir é preciso coragem, força e integridade q.b..

As ausências a que temos de nos adaptar são diferentes, consoante tenhamos sido nós a decidi-las, ou outros a dar esse passo definitivo. Em todos os lados de cada história há lutas interiores e não há vencedores nem vencidos. Todos perdem algo — uns muito, outros pouco —, mas cada um tem de se virar sozinho com essa perda, para conseguir tirar dela o maior proveito possível — uma aprendizagem… uma metamorfose… enfim, bagagem para as experiências futuras.

A acção está acima da palavra (fazer nada também é agir). E para terminar, deixo-vos com o que disse Churchill:

— If you’re going through hell, keep going.

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