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Estado de Sítio

A destruição do mito

Por Ana Raimundo Santos

No passado domingo, dia 25 de Maio, decorreram um pouco por toda a Europa as eleições europeias [1], cuja finalidade é eleger os representantes de cada Estado Membro para o Parlamento Europeu [2].

Este sufrágio tende a ser pouco participado, sendo que em Portugal a abstenção foi a vencedora inequívoca, com uma percentagem entre os 61 e os 66% [3]. No entanto, espante-se o leitor, este não tem sido o principal foco de debate e desagrado junto do meios de comunicação social e do povo, quer em Portugal quer no resto da Europa. A tónica do discurso e da «preocupação» em torno dos resultados das eleições europeias centra-se na votação francesa e na vitória da Frente Nacional [4], originando-se, neste ponto, uma falácia que poucos estão interessados, sejam quais forem os motivos, em esclarecer.

Na última semana muitos foram os que se levantaram, qual arautos da desgraça, para comparar a vitória da Frente Nacional e de Marine Le Pen aos resultados das eleições de 1932 na Alemanha [5] e que culminaram, em 1933, com a nomeação de Adolf Hitler para chanceler daquele país.

Nas eleições de 1932, Hitler e o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães [6]  obtiveram apenas 36,77% dos votos dos alemães, contra os 53,05% de Paul von Hindenburg [7]. Logo, a velha, errada, e repetida até à exaustão, afirmação de que Hitler foi democraticamente eleito pelo povo alemão está errada. Hitler não se tornou chanceler da Alemanha por via de sufrágio popular, mas sim em virtude de uma conjugação de jogos e coligações de gabinete, tendo o seu reinado de terror tido início com a instrumentalização ardilosa do incêndio do Reichtag, em 27 de Fevereiro de 1933 [8].

Por motivos académicos, e porque a presente crónica não se arroga à posição de aula de História, não posso, não devo, tão pouco faço tenções de desenvolver aqui este tema, remetendo-o para sede própria. No entanto, perante o circo que se montou em redor dos resultados eleitorais franceses do último domingo, o esclarecimento urgia.

Destruiu-se o mito, e agora todos têm à sua disposição fontes que permitem esclarecer de forma bastante elucidativa que Hitler não foi eleito Chanceler pelo povo alemão, que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães nunca ganhou as eleições, e que, acima de tudo, é ridículo comparar o que aconteceu na Alemanha em 1933 e o que aconteceu no passado domingo em França. Não se pode comparar o que não é comparável mas, acima de tudo, não se pode entrar em histerismos colectivos nos quais se afigura evidente o desconhecimento da História e o pouco, ou nenhum, interesse em conhecê-la.

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