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Olho Clínico

Perguntas

Por Sara Teotónio Dinis

Há uma habilidade que todos os médicos devem dominar com destreza: perguntar.

Fazer perguntas é provavelmente a ferramenta diária mais importante na vida do médico. Temos de perceber, consoante as queixas, quais as perguntas a fazer. Depois de identificarmos o problema que está na origem provável dos sintomas e sinais do utente, o «interrogatório» não se esgota. Há sempre coisas que o utente não nos vai dizer se não as soubermos perguntar e que podem ser importantes para perceber melhor o contexto e as especificidades da situação em causa: alteração dos hábitos de sono, intestinais e urinários; medicações iniciadas ou alteradas recentemente, viagens recentes a outros países; início de actividade laboral diferente; alteração de hábitos de consumo (álcool, tabaco, drogas).

Mediante impressão clínica suspeita em algumas consultas, pode haver necessidade de perguntar se:

— Há mais alguma coisa que queira referir relativamente a este problema? — ou: — Por casa vai tudo bem?

Estas são perguntas dirigidas ao esclarecimento de motivos ocultos de consulta, aqueles que os utentes não dizem logo e que podem nem vir a dizer nunca se nós não abrirmos esse espaço de discussão.

Muitas vezes é só no final da consulta que percebemos o porquê daquela deslocação à unidade de saúde, quando, talvez a medo, perguntamos:

— Há mais alguma coisa que o/a preocupa?

Por vezes, é depois desta interrogativa que começa a consulta «verdadeira». E poderá ser também esta uma oportunidade de indagar quais os sentimentos que as situações referidas suscitam ao utente.

Em suma, é preciso fazer:

  • Perguntas dirigidas ao problema apresentado;
  • Perguntas dirigidas ao problema oculto;
  • Perguntas sobre os sentimentos/angústias do utente.

Mais do que fazê-las, é preciso saber fazê-las… «Cada um é como cada qual». Cada utente tem crenças e vivências díspares. Cabe ao médico adaptar a abordagem e a sua linguagem para construir as perguntas sem ofensas e sem enviesar as respostas.

Há perguntas terapêuticas, e perguntas indutoras de estresse. Se estivermos perante um utente ansioso, o número das questões e os tópicos onde elas incidem devem ser bem ponderados, para evitar gerar mais preocupação. Face ao mesmo tipo de utentes, há questões que podem ter efeitos terapêuticos — as questões «devolvidas». São aquelas que podemos fazer de volta face a uma queixa condizente com o estado de ansiedade, perguntando ao utente o que é que ele acha que está a provocar a sua queixa, e a posteriori, se ele acha que algo pode ser feito para minimizar essa queixa, e se acha que ele próprio pode ter um papel activo nessa «cura». As respostas às perguntas devolvidas podem surpreender, de tão curiosas e, por vezes, inesperadas.

Para terminar a reflexão sobre a essência das perguntas… No outro dia, numa formação, o professor propôs-nos fazer uma última pergunta aos utentes, quando os estivermos a encaminhar à porta:

— Gostou da consulta?

Mas quem tem coragem de a fazer? Arriscado, no mínimo… Mas quem não arrisca…

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