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E se sorteássemos os nossos deputados?

Por Pierre Barthélémy (Le Monde Science et Techno, 23.III.2012) [a]

Em 2012, entre eleições presidenciais e legislativas, a maioria dos Franceses depositou quatro votos numa urna. Voto, voto, voto, voto! Esta escolha dos responsáveis políticos pelo eleitorado contribuiu para melhorar a situação do país? Esta é a questão iconoclasta colocada em 2011 por um quinteto de investigadores italianos (dois físicos, um politólogo e dois estatísticos), num artigo saído no sítio de pré-publicações científicas arXiv. A ideia não era atirar a democracia às urtigas, mas lembrar que o governo do povo para o povo e pelo povo não passa necessariamente pela assembleia de voto: pode muito bem sortear-se aquelas e aqueles que terão a responsabilidade de gerir o país e de fazer leis, da mesma forma que o acaso nomeia os jurados dos tribunais populares.

Ao fim e ao cabo, a democracia ateniense procedia dessa forma para escolher conselheiros e arcontes. A complexa eleição do Doge de Veneza envolvia também uma boa dose de acaso. O processo, defendem estes investigadores um pouco utópicos, regularia o sistema partidário e seria mais igualitário, levando ao parlamento cidadãos de todos os quadrantes políticos, de todas as origens sociais e étnicas e, mais importante, de ambos os sexos igualmente. Seria o fim destas câmaras bicolores, onde uma oligarquia política dominada pelos homens está menos preocupada com o interesse geral do que com a sua reeleição. Terminariam também as campanhas eleitorais com frenesim mediático e sondagens diárias contraditórias.

Todavia, é preciso assegurar que o acaso faria bem as coisas. Uma assembleia nacional completamente sorteada seria mais eficaz do que uma eleita, ou devemos inventar um coquetel de ambos? É aqui que a ciência improvável entra, com uma magnífica modelação parlamentar baseada nos mais recentes avanços na física estatística. Uma assembleia cem por cento aleatória seria um fracasso retumbante. É certo que os projectos de lei aprovados beneficiariam dum amplo apoio, mas os quinhentos deputados virtuais descritos pelo modelo seriam tão independentes uns dos outros, que a maioria dos textos não obteria apoio suficiente para sequer ir a votos! Eficácia quase nula.

Os partidos políticos têm, portanto, um pouco de bom. Ainda assim, é importante certificarmo-nos de que nenhum deles — ou qualquer coligação — obtém a maioria absoluta, porque, se esse for o caso, as leis deixarão de visar resolver problemas colectivos, mas somente satisfazer clientelas ou interesses corporativos. O truque consiste em reservar aos deputados sorteados, que deverão ter uma visão mais altruísta da política, uma parte suficiente de assentos para que os políticos profissionais sejam forçados a mover o curso da sua acção legislativa em direcção ao interesse geral.

Este estudo sobre os méritos da lotocracia é uma recidiva. Em 2010, a mesma equipa mostrara que, por causa do princípio de Peter — que diz que, numa empresa ou numa administração, todos os empregados terminam, graças ao jogo das promoções, por alcançar o seu nível de incompetência —, é mais eficiente, quando um alto cargo fica vago, escolher o novo titular à sorte. Portanto, sugiramos à Santa Casa que crie novos bilhetes: raspadinha do presidente do conselho de administração, lotaria dos deputados…


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

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