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O Fundamentalista Científico

Por que estamos a perder esta guerra

Por Satoshi Kanazawa [a]

Um lema popular, muitas vezes encontrado em botões e autocolantes ostentados por hippies e outros liberais, proclama: «o ódio não é um valor familiar.» Bem, o ódio pode não ser um valor da família, mas é uma emoção inata e parte integrante da natureza humana universal.

Como explicamos no Capítulo 8 de «Why Beautiful People Have More Daughters» [Por que as pessoas bonitas têm mais filhas] [2] («The Good, the Bad, and the Ugly» [O bom, o mau e o feio]), o etnocentrismo (ou «racismo») é uma tendência humana inata. Fomos desenhados pela evolução para amarmos os membros do nosso grupo e odiarmos os membros doutros grupos, a fim de motivar e facilitar o conflito intergrupal. Sim, o ódio é natural. Mas lembre-se o perigo da falácia naturalista — derivar implicações morais de factos científicos. «Natural» não significa nem «bom» nem «desejável». Também não significa «inevitável». A maioria de nós aprende a superar as suas tendências evolutivas inatas.

As duas guerras mundiais duraram quatro anos. Lutámos contra vastos impérios, com forças armadas organizadas, com tanques, aviões e submarinos, mas precisamos de apenas quatro anos para os derrotar. Agora, estamos no meio do que o colunista do New York Times Thomas Friedman chama apropriadamente de III Guerra Mundial, um choque global de civilizações com escaramuças localizadas contra inimigos que vão desde a Al Qaeda no Médio Oriente, a Jemaah Islamiyah no Sudeste Asiático, os rebeldes chechenos na Rússia, aos Talibãs no Afeganistão, aos terroristas suicidas palestinianos em Israel, aos insurgentes sunitas no Iraque. A III Guerra Mundial, que começou a 11 de Setembro de 2001, já se arrasta há quase sete anos [b], mas não há fim à vista. Não há sinais claros de que estejamos a vencer a guerra, nem sequer a liderar a corrida. Em comparação com os nossos inimigos, dispomos de muito mais dinheiro, armas e máquinas muito mais avançadas tecnologicamente, e os exércitos mais organizados e treinados (embora muito menos combatentes reais). Por que não é então tão simples como um afundanço no basquetebol?

Parece-me que há um recurso que os nossos inimigos têm em abundância, mas nós não: o ódio. Nós não odiamos os nossos inimigos nem de perto nem de longe tanto quanto eles nos odeiam. Eles são consumidos por puro e intenso ódio contra nós, enquanto nós parecemos ter eliminado o ódio do nosso léxico e do nosso repertório emocional. Nós nem sequer podemos chamar inimigos aos nossos inimigos, tendo passado a usar eufemismos como «terroristas» [c]. A razão pela qual podemos estar a perder esta guerra, é porque os nossos inimigos têm uma gama de emoções humanas completa, enquanto nós não.

Isso nunca aconteceu nas nossas guerras anteriores. Sempre odiámos os nossos inimigos, pura e intensamente. Eles eram japs, eles eram boches, eles eram chinocas. E nós não pensámos duas vezes antes de largar bombas sobre eles, de matá-los e às suas mulheres e filhos [d]. Odiar os inimigos sempre foi um motivo emocional próximo para a guerra ao longo da história evolutiva humana. Até agora.

Veja-se um pequeno exercício intelectual hipotético. Imagine que, a 11 de Setembro de 2001, quando as Torres Gémeas caíram, o presidente dos Estados Unidos não era George W. Bush, mas Ann Coulter [4]. O que teria acontecido então? No dia 12 de Setembro, a presidente Coulter teria ordenado que as forças militares dos EUA largassem 35 bombas nucleares em todo o Médio Oriente, matando todos os nossos combatentes inimigos actuais e potenciais, e as suas mulheres e filhos. A 13 de Setembro, a guerra estaria terminada e ganha, sem uma única vida americana perdida.

Sim, precisamos duma mulher na Casa Branca, mas não a candidata Hillary.


Nota:

a: Este artigo foi traduzido do original [1] pelo editor chefe (n. do T.).

b: Este artigo foi originalmente publicado em 2008 (n. do T.).

c: Tal como eu explico noutro artigo [3], não estamos realmente lutando contra terroristas (n. do A.).

d: Como muitos comentadores apontaram, a distinção entre combatentes e civis não faz sentido na III Guerra Mundial, e a Convenção de Genebra — um acordo entre as nações — já não é aplicável, porque os nossos inimigos não são Estados-nação (n. do A.).

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