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Consultório da Ria

O funcionamento do cérebro

Por Carlos Lima

O cérebro é um órgão tão especializado que, para além de receber 25% do sangue de cada batimento cardíaco [1], possui uma irrigação sanguínea e nutricional diferente do resto do corpo. A barreira hemato-encefálica filtra o sangue e limita o acesso ao cérebro de moléculas maiores que lhe poderiam ser nocivas. Apesar de ser metabolicamente muito activo, o cérebro necessita de poucos nutrientes, mas exige o seu fornecimento contínuo. Uma quebra de fornecimento de quatro minutos de oxigénio pode lesar definitivamente as células cerebrais. Um deficiente fornecimento de glicose (açúcar) pode gerar confusão mental, convulsões e perda de consciência.

O líquido cefaloraquidiano circula no interior da barreira hemato-encefálica, contido dentro das meninges, e tem as funções de nutrir e proteger o cérebro. Temos entre 80 a 150 ml de líquido cefaloraquidiano, que contám proteínas, glicose, ureia e sais. Forma-se à mesma velocidade com que é absorvido. Um aumento da produção de líquido cefaloraquidiano ou uma dificuldade de drenagem criam um aumento da pressão nas meninges, chamada de hidrocefalia, que compromete o cérebro, pelo que exige a colocação de válvulas de drenagem.

O cérebro funciona como um todo, mas, graças ao desenvolvimento da ciência, podemos estudar as áreas e associá-las a determinados movimentos ou a determinadas actividades. O electroencefalograma, a tomografia computorizada, ou mesmo a tomografia por emissão de positrões, permitem-nos compreender que áreas do cérebro são mais activadas, em cada actividade. Com base neste conhecimento, foram definidas áreas funcionais no córtex cerebral; são de três naturezas: sensitivas, motoras e de associação.

As áreas sensitivas estão relacionadas com a recepção e a interpretação da informação que nos chega através dos sentidos (visão, audição, olfacto, tacto e paladar). A importância destas áreas é a sobrevivência do indivíduo, porque o alerta para os perigos.

As áreas motoras estão relacionadas com os movimentos corporais e os grupos musculares. O grau de representação ou área cerebral utilizada é maior quando o conjunto de músculos executa tarefas de maior precisão. Por exemplo, a mão, o polegar, a língua e as cordas vocais têm uma representação muito maior do que o tronco.

As áreas de associação estão relacionadas com as funções integrativas, tais como a memória, a vontade, o raciocínio, o julgamento, os traços da personalidade e a inteligência. Ela assume particular importância nos processos que implicam a reformulação do pensamento. Aqui, destacarei a memória, pois as áreas associadas à memória são as mais extensas do córtex cerebral. Ainda ninguém conseguiu definir como retemos e activamos a informação contida na memória, mas temos tendência a defini-la como uma grande biblioteca, em que as áreas de interesse são associadas de forma a um acesso mais rápido. O que sabemos é que existe a memória de curto prazo, que pode durar de alguns segundos a poucas horas: por exemplo, fixar o nome da pessoa com quem se encontrou ocasionalmente, para a tratar pelo nome durante a conversa. A memória de longo prazo dura dias ou anos, está relacionada com acontecimentos mais importantes e está, regra geral, associada a repetições ou acontecimentos determinantes na nossa vida. Fixar o nome do companheiro, do colega de trabalho, etc.. As repetições levam à consolidação da memória.

Os neurotransmissores são substâncias que medeiam a transmissão dos estímulos duma célula cerebral a outra. As actividades do sistema nervoso dependem da regulação destes neurotransmissores, pois uns servem para activar a transmissão e outros para impedi-la. Muitas doenças do sistema nervoso estão relacionadas com os neurotransmissores, como é o caso da doença de Parkinson, relacionada com a dopamina.

Para uma boa higiene cerebral, os períodos de vigília e repouso devem ser equilibrados e o respeito pelo sono assume particular importância, pois pensa-se que é durante este período que se arrumam as nossas memórias; depois, a qualidade do sono influencia determinantemente a qualidade da nossa vigília e a capacidade de tomar decisões. É impossível a vida sem períodos de sono.

Saúde!

7 comentários a “O funcionamento do cérebro”

[…] Quando falamos da célula [1], já estamos a falar duma estrutura pequena, microscópica; mas, dentro da célula humana, ainda existem estruturas funcionais importantes, com dimensões ainda mais pequenas. A mitocôndria é uma dessas estruturas. Assim, a mitocôndria assume-se como a estrutura geradora da energia que permite à célula desenvolver a sua função. A mitrocôndria é tão necessária, que as células de alto rendimento do corpo possuem várias mitocôndrias, como é o caso das células musculares [2], das do fígado [3], das do rim [4], das do coração [5] e das células nervosas [6]. […]

[…] Esta noite, não dormi o suficiente, mas há males que vêm por bem, porque isso deu-me a ideia de falar do sono. Por que dormimos? Se temos 24 horas num dia, por que não podemos aproveitá-las todas para fazer coisas; por que temos de passar um terço das nossas vidas deitados, de olhos fechados, desligados do que se passa à nossa volta? Dormir é fundamental à nossa saúde e bem-estar ao longo da vida. A quantidade certa de repouso de qualidade no momento certo ajuda a proteger a saúde mental e física e a aumentar a qualidade de vida e a segurança. Na verdade, sentir-se bem enquanto se está acordado depende, em parte, do que acontece enquanto se dorme. Como disse o Carlos [2] aqui há tempos, «é impossível a vida sem períodos de sono» [1]. […]

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